Isabel Quelhas, docente da Escola de Enfermagem (Porto) e da Faculdade de Ciências da Saúde e Enfermagem da Universidade Católica Portuguesa, traçou um percurso marcado pela prática clínica, pelo ensino e pela investigação. Formada em Enfermagem pela Escola Superior de Enfermagem da Imaculada Conceição - que viria a integrar a Universidade Católica, é especialista em Enfermagem de Saúde Infantil e Pediátrica e doutorada em Enfermagem pela UCP. Tem-se dedicado à investigação sobre a maternidade em contextos adversos, particularmente no de reclusão e, nesta entrevista, partilha algumas descobertas desse trabalho. Reflete ainda sobre os desafios da prática e a importância de um ensino que forma para “um cuidado competente, eticamente robusto e justo para todos”.
Como foi o início do seu percurso académico na enfermagem?
Entrei muito jovem, com 18 anos, num curso único, que realmente põe à prova, desde muito cedo, a maturidade e a responsabilidade. O curso de Enfermagem foi muito trabalhoso e exigente; uma novidade a cada novo ano, e a cada nova área. Mas foi, provavelmente, a melhor decisão que fiz na vida, em termos profissionais.
E após concluir essa formação, começou a exercer.
Comecei a trabalhar em cuidados intensivos, a área que mais me desafiava, com a qual julgava que iria aprender mais. E assim foi, é uma experiência muito impactante. O curso dá-nos bases para a vida profissional, mas ainda assim não nos pode preparar para tudo o que vamos encontrar. Foi um contexto de trabalho exigente: do ponto de vista físico, trabalhamos por turnos, 12 horas seguidas, às vezes, sem nos sentarmos; mas também a nível emocional, lidamos com a vida e com a morte de muito perto. Três anos depois, ingressei na docência, na mesma escola onde me formei. Depois, fiz uma especialização dentro da Enfermagem e fiz o percurso (também mais ou menos) óbvio em termos académicos: o mestrado e o doutoramento.
Atualmente, como encara o desafio de ensinar?
Faz-me sentido poder, de uma forma muito próxima, estar junto dos estudantes, e, através da ciência, mas também do exemplo, aportar os valores humanistas, e cristãos, que importam, que podem fazer a diferença na formação holística dos nossos estudantes. Ensinar é, efetivamente, um misto de um enorme privilégio e de uma grande responsabilidade. O privilégio reside em estar atualizada em tudo o que emerge, estar em contacto com uma fase da vida da pessoa absolutamente estruturante - que é esta fase da formação académica - podendo, estou convicta, influenciar estes estudantes. São jovens muito desenvolvidos, com imensas capacidades, com muito mais oportunidades do que outrora tinham - e isso é uma riqueza humana muito grande. Contudo, temos a enorme responsabilidade de procurar ser transformadores no seu processo de amadurecimento pessoal e profissional que o curso exige, ajudando-os a superar aspetos menos favoráveis e a tirar partido das suas qualidades e das portas abertas que têm para o seu futuro.
“É nos momentos mais difíceis que, como enfermeiros, podemos ser mais significativos junto das crianças e dos pais.”
Especializou-se em Enfermagem de Saúde Infantil e Pediátrica. O que a fascinou nesta área?
Em todo o meu percurso, sempre fiquei mais sensível e mais atenta às situações da infância e da parentalidade. A enfermagem consegue estar junto das pessoas nos processos de vida; nesta área, da conceção até à entrada na vida adulta. E as alegrias são enormes: a notícia de que alguém vai ser pai/mãe, de que o filho nasceu, de que é saudável, de que está a crescer bem, de que tem êxito na escola, que faz muitos amigos - tudo isto são ótimas notícias, que partilhamos e vivemos com muita intensidade. Mas também não podemos ignorar que as coisas não correm sempre bem: as crianças adoecem, as crianças morrem, as crianças nascem com deficiências. Hoje temos esta realidade: por um lado salvamos muitas crianças, conseguimos que elas sobrevivam nascendo mais cedo, mas este resultado não é isento de circunstâncias extremamente impactantes na vida daquela família. E, portanto, há este misto de alegrias e tristezas, mas, no equilíbrio entre o que é difícil e o que é muito bom, ganha, sem dúvida, o muito bom. Os estudantes frequentemente questionam-me, dizendo “eu gosto muito de crianças, mas doentes acho que seria muito difícil, para mim, de ver e de ajudar”. Eu faço-os pensar que, quando gostamos muito de algo ou de alguém, temos de aceitar o bom e o menos bom. É nos momentos mais difíceis que, como enfermeiros, podemos ser mais significativos junto das crianças e dos pais: podemos transformar aquele déficit, aquele problema, em algo menos penoso, aliviar o sofrimento e ajudar a ultrapassá-lo.
Tem-se focado na investigação sobre parentalidade em contextos adversos, mais especificamente em reclusão. Que descobertas fez neste processo?
A preocupação com as questões da parentalidade tem estado presente no meu percurso profissional, contudo, comecei a investigar esta área mais específica dos contextos adversos no decurso do meu doutoramento: procurei compreender como é ser mãe em contexto de reclusão e, na verdade, descobri muitas coisas. Percebi que estas mães estão focadas nos filhos, de uma forma muito intensa. Para algumas delas, ser mãe daquele filho deu outro significado à experiência de maternidade que tinham até ali, provavelmente devido à dependência única delas para o cuidado do filho, não podendo, enquanto reclusas, contar com mais ninguém. Por outro lado, percebi também que estas crianças têm uma mãe a tempo inteiro, algo que muitas vezes não acontece cá fora, onde o trabalho e outras responsabilidades impõem que deixemos os nossos filhos ao cuidado de outros. Embora as crianças sejam retiradas de um contexto de liberdade, na verdade, até determinada idade isso não é totalmente percetível para elas, e importa salientar que ali têm o privilégio de ter uma mãe que as cuida permanentemente - podendo essa convivência prolongar-se até aos cinco anos. O regime prisional exige igualmente que estas mulheres desempenhem adequadamente o papel de mães, e este é, em grande parte das situações, bem assumido por elas. Ainda assim, há circunstâncias que revelam constrangimentos importantes: no contexto prisional, são, antes de tudo, reclusas e só depois mães, e isso pode colidir com alguns direitos previstos na legislação. Por exemplo, hoje está consagrado o acompanhamento parental quando uma criança está hospitalizada, mas uma reclusa não o pode fazer da mesma forma: funciona como visita e necessita da presença de um guarda, o que limita esse direito. São apenas algumas das minhas observações - foi um admirável novo mundo, um contexto muito desconhecido, não apenas para mim, mas também para a própria enfermagem, e compreender estas realidades, penso que pode ter sido um contributo importante para cuidar melhor destas mães e destas crianças.
“O cuidado, que nunca se pode distanciar da boa prática, tem sempre um lado pessoal, em que cada um incorpora as ferramentas e técnicas à sua medida, no seu entendimento, da sua forma.”
Fala em vários desafios e situações mais difíceis. Como é que se prepara um estudante de enfermagem para estes cenários?
Ensinamos, desde o primeiro ano, a comunicação, uma área vasta e absolutamente transversal. Ensinamos, particularmente, a comunicar com as crianças e com os pais, e aqui também se inclui a transmissão de más notícias, e, portanto, antes de mais, há uma preparação académica para esta assistência. E, depois, há a incorporação desta formação naquilo que cada um é. Não podemos esquecer que os jovens já nos chegam aqui com 18 anos, com um carácter, uma personalidade, que não tem de se transformar durante o curso, mas tem que ser trabalhada no sentido das exigências do curso e da profissão. O cuidado, que nunca se pode distanciar da boa prática, tem sempre um lado pessoal, em que cada um incorpora as ferramentas e técnicas à sua medida, no seu entendimento, da sua forma – e o amadurecimento profissional também ajudará nessa definição.
Recomenda algum filme ou série na área da saúde infantil?
A série “Adolescência” leva-nos para um período da vida absolutamente paradigmático nesta fase da área pediátrica, e que retrata circunstâncias atuais da adolescência muito impactantes e verdadeiramente desafiantes para a parentalidade contemporânea. Julgo que todos devemos ver, especialmente quem tem ou pensa ter filhos.
Que palavras partilharia com alguém que está agora a começar o curso?
É preciso encarar este curso como uma profissão para toda a vida, lembrando que temos de ser muito competentes, pois cuidar do outro exige excelência. Diria que o objetivo é desenvolver um cuidado competente, eticamente robusto e justo para todos.
Serão quatro anos de desenvolvimento, através de toda a componente teórica, mas também prática - pois o curso tem uma forte componente prática. Assim, terão a oportunidade de preparar este percurso que os levará a assumirem a profissão - dará muito trabalho, será bastante exigente, mas se for o que realmente querem, será seguramente muito prazeroso.
