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Helena Gil da Costa: “Sem tempo não há criação.”

Helena Gil da Costa é docente na Universidade Católica Portuguesa no Porto desde 1999, onde tem desenvolvido trabalho nas áreas da criatividade, sociologia, educação e cultura portuguesa. Formada em Educação de Infância pela Escola de Educadores de Infância Paula Frassinetti e, mais tarde, em Sociologia pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto, concluiu um Master em Criatividade Aplicada Total na Universidade de Santiago de Compostela e fez doutoramento em Ciências Sociais e Humanas na Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro. Desde aí, e qualquer que seja a área que lecione, a criatividade é o eixo central da sua prática docente. Última aventura? 100km a caminhar no Deserto do Saara.

 

Quais são as memórias da sua infância?

Uma imagem-som linda que me acompanha é a da bica da água do tanque da nossa casa na Póvoa de Lanhoso – deita água de dia e de noite, no verão e no inverno, água que sai dali para regar os campos. Nunca nos faltou. É, de alguma maneira, símbolo e metáfora para o que me foi dado viver. Nasci e vivo no Porto, mas aquele é, ainda hoje, o meu lugar de “chegar a casa”. Era, e é, o lugar onde nos juntávamos todos – os avós, os meus pais e irmãos, os tios e os primos. Eramos muitos, de todas as idades. Quando crianças, passávamos os dias a calcorrear os montes. Tive a sorte (acho que é mesmo uma bênção), de crescer numa família de gente de bem – pessoas com valores sólidos, gente íntegra, gente de fé, gente que assumiu a relação e o serviço à comunidade como parte do seu propósito de vida.

 

A sua formação de base é em Educação de Infância. Como surgiu esse caminho?

Ainda que com contornos e em contextos muitos diversos, o trabalho em educação faz parte da minha família. Acompanhou-me desde sempre. Eu descobri o meu próprio caminho de uma forma muito simples, até pueril. Um dia, voltava de elétrico para casa e vi um grupo de crianças de um certo orfanato. Era assim que, naquele tempo, se denominavam as casas de acolhimento. As crianças reconheciam-se ao longe – sempre em grupo, sempre em fila, todas vestidas de cinzento. Não era a primeira vez que as via na cidade. Mas, naquele dia, sei lá porquê, pensei que as coisas podiam e deviam ser diferentes, que o meu lugar podia ser com elas. Abandonei a ideia de fazer a licenciatura em Românicas e, no ano seguinte, matriculei-me na Escola de Educadores de Infância Paula Frassinetti. Aí, fiz a minha formação, parti para o trabalho direto com crianças (tão diferentes das com que me tinha cruzado naquela tarde), e para lá voltei como docente. Poucos anos depois estive envolvida na criação e na direção executiva e pedagógica da Escola de Educadores de Infância Santa Maria e da Escola Santa Maria (creche, jardim de infância e primeiro ciclo do ensino básico). Exerci funções docentes durante quase 25 anos. Nunca mais voltei, no entanto, ao trabalho direto com crianças, nunca trabalhei com as que me fizeram encontrar o meu caminho. Fico a dever-lhes isso. Hoje, com 68 anos, por muitos outros lugares que possa ter percorrido, se me perguntar o que sou, respondo sem hesitar: sou educadora.

 

Mais tarde, já depois de estudar Sociologia, acaba por fazer um Master em Criatividade. O que é que a levou até esta área?

A minha formação como educadora de infância aconteceu numa época muito particular e forte da história do nosso País (1975-1978). Foi, como sabemos um tempo de grandes sonhos e ilusões, de entusiasmo coletivo, um tempo em que se acreditava que era possível mudar e criar um mundo melhor – estava nas nossas mãos, era essa a nossa responsabilidade. Anos mais tarde, durante a minha licenciatura em Sociologia, o impacto foi quase o oposto. A Sociologia obriga-nos a pôr os pés na terra, a olhar para a realidade social como ela é – a conhecer, descrever e compreender a forma como as relações sociais efetivamente acontecem, a perceber que a nossa capacidade individual e o nosso poder de mudança social são reduzidos. Durante muito tempo, senti um vazio que não sabia como preencher – oscilava entre aqueles dois polos, acreditava em cada um deles, mas não sabia como os ligar. A Criatividade, enquanto área de estudo, chegou também “por acaso”, como chegam tantas coisas boas de que andamos à procura, mesmo sem saber. “Caiu-me no colo” durante um congresso. Semanas depois, inscrevi-me, também sem hesitação, no Master em Criatividade Aplicada Total na Universidade de Santiago de Compostela. Aí entendo que esse vazio pode ser preenchido, que a mudança pode e deve acontecer. Já não se trata, porém, de mudar o mundo, mas de mudar mundos – o meu, seguramente, em primeiro lugar, porque também essa é a minha primeira responsabilidade. Desde então, enquanto pessoa e enquanto docente, a preocupação passa a ser “aprender a partir de dentro” – aquilo a que chamamos “conhecimento encarnado”.

 

“Num mundo que está louco, como não pensar na nossa responsabilidade, no que nos cabe fazer?”

 

Hoje identifica a criatividade como o eixo do seu trabalho. Como é que esse percurso a leva até à Universidade Católica?

De uma forma quase “natural”, mas bem desafiante, a criatividade levou-me a fazer formação com pessoas de áreas muito diferentes – jovens estagiários em design industrial, bancários sindicalizados, chefes de linha de montagem de uma fábrica de calçado, gente da gestão de uma empresa de Vinho do Porto… Com essa experiência, em tempo de inquietação, com vontade de mudar, enviei o meu curriculum para a Escola das Artes que tinha começado a sua atividade há pouco tempo. No início, em 1999, a minha colaboração foi muito pontual – orientava um seminário anual de criatividade, durante uma semana, com estudantes do curso de pós-graduação. Em 2001 comecei a lecionar na Faculdade de Teologia. Aos poucos, a colaboração foi-se alargando e, anos depois, quase sem dar conta, chegou o tempo do tempo inteiro na Universidade. Já trabalhei com todas as Unidades Académicas do Porto, participei e estive na coordenação de diversos projetos transversais. Hoje a minha afiliação institucional é na Faculdade de Educação e Psicologia, mas continuo a colaborar com outras Unidades Académicas e com outros projetos.

 

A criatividade ensina-se?

Podem ensinar-se instrumentos e técnicas, mas que, por si só, não são criatividade. Há muitas definições de criatividade validadas academicamente, mas vou-me focar numa delas – a criatividade enquanto capacidade/qualidade e atitude humana. Como tal, não se ensina, como também não se ensina(m) inteligência(s). Podem e devem criar-se condições para que seja aplicada e desenvolvida. Se isso não acontecer, corremos o risco de perder grande parte dessa capacidade. Por outro lado, ainda que todos tenhamos um potencial criativo, isso não significa que o que fazemos com esse potencial seja automaticamente criativo. É costume dizer-se, por exemplo, que as crianças são muito criativas, mas não é rigorosamente assim – as crianças têm uma imaginação muito grande, mas falta-lhes conhecimento e capacidade de avaliação. Para que algo seja criativo, não basta ser diferente ou inusitado, tem de ter qualidade, tem de ter valor, tem de fazer sentido, tem de procurar e dar uma resposta intencional a uma necessidade.

 

Quais são as fases do processo criativo?

Há autores que identificam de forma diferente, com mais ou menos detalhe, as fases (não lineares) do processo criativo. Trago aqui uma das mais simples – o tempo de centrar, o tempo de agir, o tempo de celebrar. Centrar é o tempo de parar, de fazer silêncio, é o tempo lento de encontrar e dar sentido ao que se vive, ao que se procura. Agir é o fazer, é, sob pena da incoerência, o tempo de concretizar o que se encontrou-reconheceu antes. O tempo de celebrar é o tempo da alegria e da festa por causa do que se vai alcançando, por pouquinho e pequenino que seja. Sem cada um deles não há verdadeira criação e sem criação não há vida, há apenas cópia-reprodução. Porém, vivemos muitas vezes em desequilíbrio e, quando um dos tempos prevalece sobre os outros, alguma coisa vai correr mal. Se olharmos, por exemplo, para tantos espaços de trabalho, vemos que o que interessa é fazer, fazer, fazer, sem sabermos, de facto, porquê, menos ainda para quê. O quantitativo prevalece sobre o qualitativo, as pessoas respiram mal. Encontramos, cada vez mais, pessoas-grupos-organizações doentes. Tão doentes que nem reconhecem, ou preferem ignorar, a própria doença… até que seja tarde. Tanta coisa para sentir-pensar-falar-mudar só a partir daqui…

 

“Se nos perguntarmos onde costumamos ter boas ideias, raramente respondemos que as boas ideias surgem enquanto trabalhamos em frente ao computador.”

 

Do seu trabalho com os estudantes internacionais da Universidade Católica no Porto, resultou a publicação de um livro chamado “Educação, Criatividade e Cultura Portuguesa” …

O livro é uma narrativa-testemunho da unidade curricular de Introdução à Cultura e Língua Portuguesa, dirigida a estudantes internacionais, estudantes de todas as Unidades Académicas, de todos os graus, todos juntos. Esta cadeira existe desde 2017 e, desde aí, já por lá passaram mais de 700 alunos, de mais de 40 nacionalidades, de quatro continentes. Como docente e investigadora, o curso e o livro são a última “menina dos meus olhos”. Atualmente só gosto de escrever-pensar em profundidade, e de forma simples, sobre o vivido. Assim, este livro conta e fundamenta (conceptual e metodologicamente) o nosso processo de criação, o que fazemos, como o vivemos, o que resultou da conjugação das minhas diversas áreas de formação e do facto de ser portuguesa, mas, essencialmente, o que resultou do trabalho feito-vivido com os estudantes. A vida e o trabalho académico não se separam. Não é de mim para eles, é nosso. Não é isso ensinar e aprender? Não é isso sermos educadores-educandos? Há quem diga que o livro é brutalmente honesto e gosto de pensar que assim seja. Ainda que o texto geral tenha sido escrito por mim (e, na reflexão final, sobre a educação universitária atual, com a colaboração de Eugenia Trigo), está recheado de testemunhos e extratos de trabalhos feitos pelos estudantes de anos anteriores. Já tinham, por isso, regressado aos seus países quando comecei a reunir esse material. Tive de os contactar, espalhados pelo mundo, para obter a sua autorização. Foi um processo muito bonito, só por isso valeu a pena. Comecei a escrever o livro em 2019 e ficou concluído em 2025. As coisas precisam de tempo.

 

Qual é hoje o grande desafio da educação?

Que pergunta difícil e grande!! São tantos… Num mundo que está louco, como não pensar na nossa responsabilidade, no que nos cabe fazer? Um que me persegue (e repito-me), é o desafio da coerência – a coerência entre o discurso e a prática, entre o que sabemos e o que, efetivamente, fazemos. Há uma diferença fundamental entre informação, conhecimento e sabedoria. Falamos em educação integral, mas, na verdade, continuamos, tantas vezes, a focar-nos quase exclusivamente na dimensão cognitiva e esquecemos que somos corporeidade. A criação não existe sem tempo. Acredito que, talvez mais do que nunca, nós professores precisamos de parar, de refletir acerca de nós mesmos, acerca do que somos e do que fazemos. Precisamos, cada um de nós precisa, de questionar as próprias práticas. Mas isso exige tempo, disponibilidade, distância e muita coragem – muito daquilo de que, tantas vezes, andamos a fugir.

 

Onde encontra espaço para ter ideias e descansar?

Se nos perguntarmos onde costumamos ter boas ideias, raramente respondemos que as boas ideias surgem enquanto trabalhamos em frente ao computador. Referimos, antes, o tempo em que estamos a passear, a conduzir, com amigos, a cozinhar (não é o meu caso), no banho… Nesta fase da minha vida, faço trilhos sempre que posso para ver-sentir-cheirar o que não se vê, não se sente e não se cheira na estrada. A minha passagem de ano foi no deserto do Saara. Fui com algum receio, sabia que ia ser duro, mas ir ao deserto era um sonho antigo. Queria ouvir o silêncio. Vim feliz. Éramos cinco – caminhámos cerca de 100 quilómetros em cinco dias. Hoje, não tenho dúvidas de que, seja lá como for, vou voltar. Caminhar assim é uma das formas que hoje encontro para responder a uma pergunta que, acredito, não é para mim, mas para nós todos - de que maneira e em que contextos a criatividade ajuda a criar (e, até, a reconhecer) mundos mais lindos?

 

30-04-2026