Um artigo científico desenvolvido por Rosário Serrão, em colaboração com Pedro Dias, Mhairi Bowe, Ana Andrés e Tyler Renshaw, no âmbito do Doutoramento Internacional em Psicologia Aplicada da Faculdade de Educação e Psicologia da Universidade Católica Portuguesa (FEP-UCP), foi recentemente destacado no World*Go*Round da International School Psychology Association (ISPA), uma das associações internacionais de maior prestígio na área da Psicologia Escolar.
O artigo, publicado na revista “International Journal of School & Educational Psychology”, apresenta a adaptação e validação para o contexto português do Youth Internalizing and Externalizing Problems Screener (YIEPS), uma ferramenta de despiste universal da saúde psicológica dirigida a alunos do 3.º Ciclo do Ensino Básico.
Para a investigadora, este destaque representa um marco particularmente significativo no seu percurso académico e científico. “O reconhecimento pela revista da ISPA é muito importante pois tenho um carinho especial por esta associação que me tem trazido enormes aprendizagens e networks internacionais nos últimos anos.”
Uma abordagem à “saúde psicológica completa” em meio escolar
Intitulado “Adaptation and Validation of the Youth Internalizing and Externalizing Problems Screener in Portugal: A Unified Psychological Health Screening Tool”, o trabalho científico teve como principal objetivo a validação de uma ferramenta que pudesse apoiar o trabalho dos psicólogos escolares na identificação de fragilidades na saúde psicológica de estudantes do 3.º Ciclo do Ensino Básico.
Segundo Serrão, o foco esteve na validação de um questionário que permitisse uma visão integrada da saúde psicológica em meio escolar. “O principal objetivo foi validar uma ferramenta para uso por psicólogas/os escolares de despiste universal para alunos do 3º Ciclo do Ensino Básico, focada em dificuldades de saúde psicológica (i.e., mal‑estar psicológico), que pudesse acompanhar outra ferramenta de despiste focada, por sua vez, em indicadores de bem‑estar psicológico”, relata.
Uma resposta a lacunas no sistema de apoio psicológico escolar
A adaptação do Youth Internalizing and Externalizing Problems Screener (YIEPS) para Portugal surgiu num momento em que os serviços de psicologia escolar estão cada vez mais organizados segundo sistemas de suporte multinível, assentes no despiste universal e na tomada de decisões informadas por dados.
No início do Doutoramento, a investigadora identificou uma lacuna importante neste domínio, “a falta de uma ferramenta validada para o nosso contexto nacional que abrangesse indicadores de ‘saúde psicológica completa’ e cumprisse os critérios de ferramenta de despiste (por exemplo: ser de rápida aplicação e reunir informação que possa ser conectada a intervenções multinível).”
Este estudo insere‑se, assim, num esforço de disponibilizar instrumentos cientificamente validados que possam ser utilizados no terreno pelos psicólogos escolares portugueses.
O que torna o YIEPS‑Portugal uma ferramenta distinta
O YIEPS‑Portugal distingue‑se de outros instrumentos de avaliação psicológica por várias razões práticas e científicas. Desde logo, trata‑se de uma ferramenta de acesso livre e gratuito, disponível online ou mediante contacto com a investigadora. O questionário é composto por apenas 16 itens, o que facilita a sua aplicação em contexto escolar. Além disso, foi concebido de raiz como uma ferramenta de despiste universal, alinhado com abordagens multinível, e que avalia simultaneamente comportamentos de internalização (como ansiedade e sintomas depressivos) e de externalização, particularmente associados a problemas de conduta.
Por fim, outro aspeto central prende‑se com o facto de ser um instrumento de autorrelato, permitindo captar diretamente a perspetiva dos alunos sobre o seu próprio bem‑estar e mal‑estar psicológico. Esta característica é especialmente relevante para a identificação de comportamentos de internalização, que tendem a ser menos visíveis para professores e outros adultos na escola.
Gratuitidade, equidade e justiça social
Os investigadores optaram por disponibilizar o YIEPS‑Portugal de forma gratuita. “Entendemos que [um pagamento para acesso] poderia ser limitador para várias escolas e, por sua vez, para os psicólogos que nelas trabalham. A gratuitidade permite acesso transversal por parte de qualquer escola e de qualquer contexto socioeconómico.”
Identificar quem não pede ajuda: um desafio que esta ferramenta pode ajudar a superar
Um dos problemas salientados no estudo de Rosário Serrão, que foi identificado na literatura, é o facto de muitos alunos em risco psicológico não serem sinalizados pelos professores, sobretudo aqueles que não manifestam comportamentos disruptivos. “A literatura mostra que os alunos que são mais frequentemente sinalizados são os que apresentam comportamentos de externalização, ao passo que os que apresentam comportamentos de internalização são os que muitas vezes não são sinalizados/detectados”, relata.
Através da utilização universal e oportuna da ferramenta YIEPS, torna-se possível a recolha de dados junto dos alunos sobre a autoperceção da sua saúde psicológica, contribuindo para reduzir o número de jovens que passam, por vezes, "debaixo do radar” nos sistemas de suporte da escola, apesar de poderem estar em risco de sofrimento psicológico.
Um caminho para a implementação do despiste universal em contexto educativo
A implementação de um despiste da saúde psicológica com recurso à ferramenta YIEPS exige, de acordo com a investigadora, o seguimento de alguns passos específicos. Entre os aspetos essenciais estão nomeadamente a definição do grupo de alunos a incluir num primeiro despiste e a clarificação dos indicadores que se pretendem recolher.
Tal como sublinha Rosário Serrão, é fundamental envolver a comunidade educativa ao “definir uma estratégia de comunicação com a comunidade educativa sobre o processo”, sendo igualmente importante “antecipar como querem utilizar os dados.”
Além disso, as escolas devem prever, de forma antecipada, os procedimentos a adotar perante situações identificadas como de elevado risco, bem como devem definir e acompanhar as estratégias de intervenção a desenvolver nos diferentes níveis de prioridade de ação. Assim, o despiste universal pode tornar-se uma prática central na promoção da saúde psicológica, permitindo uma atuação mais preventiva, equitativa e sustentada ao longo do percurso escolar dos alunos, permitindo um alinhamento dos suportes alavancados na escola às necessidades específicas de cada contexto.
