A compreensão dos desafios psicológicos enfrentados pelos profissionais das forças policiais esteve no centro da investigação desenvolvida por Ana Moreno, no âmbito da sua tese de doutoramento realizada na Faculdade de Educação e Psicologia da Universidade Católica Portuguesa (FEP‑UCP). Intitulada “MENTAL HEALTH NEUROFORCE: A Multilevel Analysis of Mental Health, Stressors and Training Needs Among Police Forces”, a tese analisa, de forma aprofundada, os fatores de stress ocupacional, os mecanismos de coping e as necessidades de formação associadas à saúde mental em contexto policial.
O trabalho foi desenvolvido no âmbito do Doutoramento Internacional em Psicologia Aplicada e integra o projeto internacional “Mental Health NeuroForce”, um consórcio orientado para a promoção da resiliência psicológica e do bem‑estar em forças de segurança. A investigação constitui um contributo relevante para uma área marcada por elevada exigência emocional e por um estigma ainda persistente em torno da saúde mental.
“O projeto de doutoramento foi um primeiro passo para dar forma a este objetivo, focando‑se na caracterização dos principais fatores de stress ocupacionais (…) e contribuindo com a base para uma futura intervenção de promoção de resiliência ao stress”, explica Ana Moreno.
Relevância social e institucional da investigação
A motivação subjacente à investigação assenta na importância social das forças policiais e na necessidade de dar visibilidade às condições psicológicas associadas ao exercício da profissão. A tese procurou auscultar os próprios profissionais sobre os principais desafios que enfrentam, os principais fatores moderadores do seu bem-estar, os recursos de apoio psicológico disponíveis e a pertinência de intervenções focadas na regulação emocional e na gestão do stress.
Desenvolvido em Portugal e Espanha, o estudo permitiu analisar contextos institucionais distintos, mas atravessados por problemáticas comuns, como a elevada exposição a situações críticas, a influência de fatores organizacionais e a dificuldade em procurar ou ter acesso a apoio psicológico. Os resultados reforçam a necessidade de respostas institucionais mais consistentes e ajustadas às exigências emocionais da profissão policial.
Metodologia e principais resultados
A investigação estruturou‑se em duas grandes fases: uma primeira dedicada à caracterização dos desafios ocupacionais e organizacionais e ao papel do coping no bem‑estar psicológico; e uma segunda centrada na formulação de uma intervenção piloto de promoção de resiliência ao stress, com recurso a biofeedback. A metodologia integrou dados quantitativos - instrumentos de autorrelato e medidas fisiológicas - e dados qualitativos, recolhidos através de perguntas de resposta aberta.
Entre os principais resultados, destaca‑se a elevada prevalência de stress na população policial e o seu impacto significativo no bem‑estar psicológico. Em Portugal, o recurso a estratégias de coping como a supressão, surgiu como um dos maiores preditores de stress, enquanto a capacidade de diferenciação emocional apresentou um efeito protetor. Apesar dos níveis elevados de stress identificados, apenas cerca de 17% dos agentes com níveis de stress considerados excessivos recorreram a apoio psicológico profissional.
Em Espanha, tanto os fatores de stress operacionais como os organizacionais se revelaram preditores significativos de sintomas clínicos. Estratégias de coping de evitamento surgiram como um importante fator de risco, enquanto o coping focado no problema apresentou um efeito protetor, sobretudo face a sintomas depressivos. A investigação identificou ainda diferenças associadas ao género, nomeadamente maior vulnerabilidade a sintomas depressivos no género masculino, e ao tempo de serviço, particularmente maior stress entre agentes mais jovens, evidenciando a complexidade dos processos de adaptação psicológica ao longo da carreira policial.
Dimensão internacional e produção científica
A tese contou com a orientação de Patrícia Oliveira‑Silva, docente da FEP-UCP, e com a coorientação de Rowena Hill (Nottingham Trent University) e de Susanna Rubiol Vilalta (Universitat Ramon Llull), refletindo uma forte dimensão internacional. Esta colaboração contribuiu para o enriquecimento científico do trabalho e para a aproximação entre investigação e prática, incluindo a realização de iniciativas de divulgação dirigidas a profissionais da área.
No âmbito da tese, Ana Moreno produziu vários artigos científicos, alguns já publicados e outros em fase de publicação gradual, que aprofundam diferentes dimensões do stress, do coping e da resiliência em contextos policiais. Entre estes trabalhos destaca-se um artigo de revisão sistemática da literatura sobre programas de promoção de resiliência ao stress dirigidos a agentes policiais, anteriormente noticiado pelo website da FEP-UCP, no qual se conclui que estas intervenções são eficazes na melhoria da saúde mental e do desempenho profissional, embora subsista a necessidade de modelos mais homogéneos em termos de estrutura, conteúdo e avaliação de impacto.
“Concluir este doutoramento foi um momento decisivo no meu percurso enquanto académica e investigadora (…) e reforçou a convicção de que a investigação pode ter impacto real e aplicado aos problemas sociais”, sublinha a investigadora.
Mais do que o culminar de um percurso académico, a tese abre caminho à continuidade do projeto e ao desenvolvimento de futuras intervenções orientadas para a promoção da saúde mental e da resiliência psicológica nas forças de segurança.
O trabalho foi defendido a 27 de janeiro de 2026, na Universidade Católica Portuguesa.
