
Artigo de opinião de Daniel Ribas, docente da Escola das Artes.
É urgente a reunião dos seus textos sobre cinema. Muitos deles serão publicados pela primeira vez; outros serão descobertos para além da espuma dos dias e dos arquivos físicos dos jornais.
Conheci o Augusto M. Seabra (1955-2024), precisamente, lendo os seus textos. Eram, para mim, uma expansão daquilo que se chamava crítica de cinema. Acutilantes, longos, dando espaço para o pensamento se complexificar. Não só os extensos artigos que publicava regularmente no PÚBLICO, mas também a ampla produção teórica que deixou sobre o cinema português. Curiosamente, muitos dos seus textos eram (e ainda são) apenas acessíveis em outras línguas, sobretudo francês e italiano, também ligadas às programações que fizera nesses países. Aprendi a olhar o cinema português também através do seu ponto de vista, que me parece o menos “familiar” dos autores canónicos da petite histoire do nosso cinema.
Esses textos marcavam, de uma forma acutilante, uma nova forma de ver, menos ligada a uma história produtiva e mais focada naquilo que os filmes pareciam dar a ver, como eco dos imaginários de um país. Em La Scène de L’Histoire, o Augusto propunha uma divisão do cinema português por gerações, imitando a nomenclatura das vagas do cinema chinês. Foi com ele que aprendi a ler os filmes como sintomas: a sua análise do Mudar de Vida, de Paulo Rocha, e de uma certa frase dita por Maria Barroso (“Lembraste-me longe, esqueceste-me perto”), evidenciava, no interior do filme, a profunda tensão que os cineastas portugueses tinham com Portugal. Houve poucos como ele a discutir e a evidenciar como esta relação era “dolorosa”. Foi também dos primeiros a ver o lado obscuro da suposta “idade de ouro” do cinema português, rebatizando as “comédias à portuguesa” pela mais certeira categoria de “comédias de Lisboa”.
