
Isabel Capeloa Gil, Reitora da Universidade Católica Portuguesa.
Num país semiperiférico face às ondas de violência que nos chegam de leste, há transformações que o tempo exige, sobretudo no tempo de um novo governo que se inicia. Na verdade, entre as alterações da estrutura de sentimento dos últimos anos, nota-se uma clara impaciência da sociedade para com as incompetências da nossa democracia e as suas ineficiências, e a perceção de um país capturado por interesses e pela lógica de determinadas agremiações.
Uma das maiores exigências das democracias é a constituição de um ordenamento jurídico, administrativo e económico que seja resistente às tentações da vontade individual de quem tem o governo das instituições. Um sistema de equilíbrio de poderes, de checks and balances, resistente ao nepotismo, mas também a um nível médio, a criação de processos e procedimentos transparentes, equilibrados, que robusteçam as instituições. As organizações públicas e privadas devem garantir mecanismos de gestão e continuidade que as tornem resistentes às pessoas que as lideram, efetivamente prevenindo a deriva de poder individual. A crescente consciência para esta matéria em fora de governança corporativa, a sensibilização crescente das organizações para a prevenção do conflito de interesses e para a introdução de mecanismos de compliance não significa que se esteja a verificar uma mudança cultural que incorpore esta realidade tanto na prática como na experiência quotidianas.
