
Artigo de Opinião por Arménio Rego, docente da Católica Porto Business School.
Quando alguém se acostuma a violar regras, é provável que perca discernimento para compreender duas coisas: que está a violar regras e que, se for apanhado, pode ser punido. Quando uma quantidade crescente de pessoas ou entidades adota uma conduta pouco ética, ilegal ou perigosa, há riscos de que, com o decurso do tempo, essa conduta passe a ser considerada normal, tanto pelos perpetradores quanto pelos observadores. Os dois casos ilustram, de modo simples, a “normalização do desvio”: algo que é “desviante” passa a ser considerado “normal”. Em casos extremos, esta normalização pode conduzir à banalização da maldade – que as tragédias da Ucrânia e de Gaza bem representam. O fenómeno tem enormes implicações nas múltiplas dimensões da vida – social, política e empresarial.
Quando líderes propagadores de pós-verdades acabam eleitos ou são bem-sucedidos, há riscos sérios de que a malcriadez e a apologia de “factos alternativos” passem a ser consideradas normais e toleradas. Pode dar-se então início a uma espiral descendente e até decadente. O que tem ocorrido com o tema da segurança é ilustrativo. Embora sejamos, objetivamente, um país bastante seguro, as perceções de insegurança – diz-se – aumentaram. O que fazem alguns políticos? Em vez de adotarem uma postura pedagógica, e apresentarem sensatamente os factos, cavalgam as perceções, de modo populista e sem coragem. Se eu disser ao meu médico, convictamente, que sou hipertenso, o que deve o clínico fazer? Sustentar a minha convicção e medicar-me, ou cumprir o seu dever? Lamentavelmente, ao empolar a perceção de insegurança, podem criar-se, desnecessariamente, sentimentos de insegurança, desconfiança e perigo. Desses sentimentos podem resultar ações e reações que geram, objetivamente, insegurança. Eis, então, que o demagogo alardeia, com soberba, a putativa sabedoria dos seus avisos.
