
Artigo de Opinião por Alberto Castro, Docente da Católica Porto Business School.
A propósito do impacto, no mercado de trabalho, das várias transições em curso (demografia, clima, energia, automação, digitalização, etc.), os discursos oscilam entre o otimismo descabelado e o pessimismo catastrofista, sem utilidade para os responsáveis pelo desenho e implantação de políticas públicas. Sobre vários daqueles temas há, porém, estudos que permitem ter um saber de ciência feito, os quais não têm tido a merecida, e necessária, divulgação entre os decisores políticos e empresariais. Releva, por isso, que no âmbito do Fórum Produtividade e Inovação, dinamizado pela Fundação AEP e a SEDES, a partir do livro de Carlos Tavares e Sara Monteiro “Um Caminho para Portugal”, se tenha convidado João Cerejeira a fazer uma síntese de vários trabalhos que a Universidade do Minho tem vindo a realizar. Dela faço, a seguir, alguns sublinhados e extrapolações que só a mim responsabilizam.
Como as várias transições são concomitantes, não é possível destrinçar, com rigor, o que se deve a uma ou a outra. Tal apela a uma abordagem integrada, contrária à lógica de silo, dominante na administração pública e, até, nos governos. As diferenças inter e intrasetoriais são significativas: métricas únicas, “top down”, estão condenadas ao fracasso, o que convoca ao envolvimento das associações empresariais e exige destas um apresto para o efeito. Se as grandes empresas aparecem como protagonistas naturais (mais “empregos verdes”; mais digitalizadas; mais preparadas), há um outro resultado relevante: passar do nível de digitalização “baixo” para o “médio” traria, em média, um aumento de produtividade da ordem dos 20%, não requerendo tecnologias sofisticadas, nem uma reestruturação profunda da empresa. Ao alcance de muitas PME, é razão de otimismo: maior produtividade permite melhores salários. A formação ao longo da vida é complementar e vital (a mudança tecnológica é mais rápida do que a das políticas educativas). O desafio é, uma vez e sempre, desenhar os sistemas de incentivos adequados. Não ignorar a realidade é meio caminho andado. Assim haja a humildade de a ela subir.
