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"Última hora"

Católica no Porto
"Última hora"
Quarta-feira, 26 de Janeiro de 2022 in Diário de Notícias Online

Isabel Capeloa Gil, Reitora da Universidade Católica Portuguesa.

Falar de humanismo nos dias que correm parece ser exercício para académicos ou para filósofos. O termo acarreta uma carga intelectual que a maioria desconhece e muitos da minoria restante rejeitam, por desconhecimento ou ativismo. Na moda está aliás a crítica do humanismo e do seu étimo demoníaco - o humano - em nome justamente da afirmação do não humano, seja ele o animal, a natureza ou a máquina. O interessante é que o louvor do não humano se faz com uma linguagem que nada mais faz do que aplicar características humanas a esses outros. A gramática chama a tal ato personificação e somos diariamente confrontados com esta gesta. Os programas eleitorais e os placards das campanhas querem "dar voz aos animais, às pessoas e à natureza", ao mesmo tempo que clamam contra a toxicidade do ser humano. J.M. Coetzee no seu discurso de aceitação do Prémio Nobel da Literatura comparou a condição humana no tempo da exaustão planetária à de um novo Robinson, sozinho num mundo selvagem, "com possibilidade de perecer e sem esperança de salvação".

Mas não chegou ainda a última hora. Malgrado o adiantar do relógio do fim do mundo. A crise climática e a exaustão do planeta são evidências e não meros princípios. Do mesmo modo o respeito pelos animais, pelo seu conforto, constituem realidades que nenhuma sociedade desenvolvida deve, em consciência, questionar. Acoplada a esta evidência postula-se, contudo, uma celebração do inumano, do pós-humano, fundada numa crítica radical do humanismo. É certo que o humanismo como doutrina idealista que cola o desenvolvimento intelectual e estético à superioridade moral foi abalado, senão destruído, pela barbaridade do século XX. Com Auschwitz, o humanismo separou-se da humanidade. Mas, na verdade, o humanismo excede a sua apropriação pelos discursos do tempo. É justamente dessa dimensão que excede os limites da prática intelectual, que vê o humanismo como exercício crítico de afirmação da dignidade da pessoa em diálogo com o mundo, que surge a exigência de um novo humanismo.

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