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Celso Carvalho: “O ser humano de hoje quer sentido.”

Celso Carvalho é estudante do mestrado em Teologia, da Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa. Percebeu aos 12 anos que queria ser padre e, mais tarde, que o seu caminho passava por ser padre diocesano, vivendo “nessa proximidade simples, mas com muita presença”. No diálogo da Igreja com as novas gerações, identifica o desafio de, “no meio do ruído”, ensinar os jovens a “baixar o volume para ouvir o essencial”. E por isso partilha o conselho de arriscar “tirar os fones” e voltar a “Aproximar. Tocar. Falar”.

 

O que o trouxe à Teologia?

A minha vocação foi uma daquelas coisas que se sentem antes de se compreender. Desde pequeno, o meu desejo de servir vestiu-se de mil e uma fardas. Hoje, vou percebendo melhor esse “fio condutor”: fosse no tribunal (como juiz), no hospital (como veterinário ou cirurgião), na oficina (como carpinteiro) ou na igreja (como padre) - eu tinha uma “sede” imensa de cuidar das pessoas, de vê-las “maximizadas” na sua essência.
Aos 12 anos, fui com o meu pai ao seminário dos Passionistas e, sozinho, ao balcão da livraria disse sem rodeios: «Eu quero ser padre! Dizem que aqui se formam padres. Como é que eu faço?». Foi assim, com esta ingenuidade, que a caminhada começou.
Mas foi já na etapa do Seminário Maior que finalmente entendi que tipo de padre sonho ser. Gosto muito daquela imagem do Papa Francisco sobre a Igreja ser um «Hospital de Campanha». Se os missionários são os “especialistas”, eu descobri que a minha vocação é ser o “Médico de Família”, o padre diocesano que está na paróquia, que conhece as pessoas pelo nome, e que as acompanha no dia a dia. Foi nessa proximidade simples, mas com muita presença, que comecei a entrever a minha felicidade, da qual ainda faço caminho.

 

Atualmente, frequenta o 1º ano do Mestrado em Teologia, que é parte do seu percurso de formação sacerdotal.

Na lógica do seminário, o 1º ano de Mestrado equivale ao 4.º ano de uma caminhada longa de sete. Estou também a estagiar na paróquia da Trofa.
Recentemente, dei um passo que me tocou muito: a Admissão às Ordens Sacras, uma “porta” pequenina que se abre para um compromisso maior - não com as paredes de um edifício, mas com a Igreja com «I» maiúsculo: as pessoas. Se Deus quiser, seguem-se etapas bonitas, as chamadas “instituições”. Primeiro o Leitor (enraizar na Palavra) e depois o Acólito (o serviço do altar, na Igreja, onde habita Cristo; mas também no “altar da vida”: na rua, na escuta, na fragilidade do outro). Se tudo correr bem, serei ordenado Diácono e, por fim, Padre.

 

Como descreve a experiência enquanto estudante da Católica?

Acredito que cresci muito, não só como estudante, mas como homem. A Católica é, acima de tudo, um espaço humano. E para além de todo o conhecimento, acredito que ficam as pessoas. Conhecemo-nos pelo nome, olhamo-nos mais facilmente nos olhos. Aqui, reencontrei amigos, cruzei histórias com pessoas de várias congregações e vindas de outras áreas. De facto, é isto que cria um ambiente simpático, onde ninguém se sente apenas um número, mas um rosto.
O ser humano de hoje quer sentido. Queremos crescer por dentro. E a Católica oferece-nos um mundo de oportunidades que vão muito além da sala de aula: voluntariado; semanas/dias temáticos; formações; convidados especiais; etc. A vida não é feita só de Ciência ou de teoria abstrata. E foi essa «vida real», de carne e osso, que eu fui encontrando aqui.

 

“Cuidamos muito do Físico, e cada vez mais do Psicológico, o que é fundamental, mas falta o terceiro pilar: o Espiritual.”

 

Que área escolheu para aprofundar na sua dissertação de mestrado?

O Direito Canónico. A lógica da justiça apaixona-me e vejo o Direito como uma ferramenta urgente para servir o ser humano. Hoje, o grande desafio - tanto da Igreja como da sociedade - é a linguagem: o sentimento humano quase nunca cabe nas palavras. Por isso, fascina-me a hermenêutica - a arte de interpretar, não apenas ler a “letra fria” da lei (dura lex, sed lex); mas perceber o coração de quem a escreveu. Ir além da regra para encontrar o espírito da justiça.
A minha ideia de dissertação junta esta paixão com a paixão de cuidar, focando-se nas Capelanias Hospitalares. Na hora da doença, temos ainda uma visão fragmentada do ser humano. Cuidamos muito do Físico, e cada vez mais do Psicológico, o que é fundamental, mas falta o terceiro pilar: o Espiritual. Eu quero estudar o espírito, o sopro que nos anima.
A grande pergunta da minha tese é: Será que as nossas leis conseguem respeitar a integralidade complexa da vida humana? Quero investigar o valor da consciência e da dignidade no contexto médico. Porque a dignidade de uma pessoa não acaba quando a saúde acaba. E o Direito, tal como a Teologia, tem de servir para proteger esse valor sagrado até ao último suspiro.

 

Um tema muito ligado à questão do sofrimento ... Jesus sofre connosco?  

Também no seminário temático sobre o Sofrimento, tenho tido a oportunidade de estudar um «Deus que sofre connosco, sem deixar de ser omnipotente». Há uma passagem no episódio da Reanimação de Lázaro que mudou a minha visão - o versículo mais pequeno de toda a Bíblia: «Jesus chorou» (Jo 11, 35). Perante a morte do amigo, Jesus não começa por fazer discursos, nem operar um milagre imediato. Jesus chora, mostrando que, diante da dor do outro, não conseguimos (nem devemos) ficar indiferentes.
É aqui que eu encontro o “método” que quero levar para a vida, sobretudo num mundo cheio de ecrãs. Jesus ensina-nos uma gramática de três passos: o primeiro é aproximar: vencer a distância dos telemóveis e chegar ao pé; o segundo, tocar: sentir o calor do outro, o bater do coração no pulso, a mão que treme. O toque que cura onde a palavra não chega; o terceiro é falar: Só no fim, se houver espaço, é que falamos.
E é isto é que nos distingue. Nós, humanos, temos essa capacidade única - e esse fardo - de pensar, de discernir e de procurar sentido no meio da dor. Ajudar as pessoas a fazer esse caminho, sem fugir às perguntas difíceis, é o que mais me entusiasma agora.

 

“A minha mensagem para o Natal é não deixar a cadeira vazia. Aproximar. Tocar. Falar”

 

Que desafios enfrenta a Igreja no diálogo com as novas gerações?

Hoje, ser jovem cristão é um desafio de navegação. Vivemos num mundo onde o algoritmo do Instagram quer a nossa atenção; o X quer a nossa revolta; a política quer o nosso voto… E no mercado da atenção, quem fala com mais convicção ganha, mesmo que não tenha conteúdo. Valorizamos o espírito empreendedor, o palco, o sucesso rápido.
O desafio da Igreja é precisamente não cair nessa armadilha. Gosto muito da abordagem dos Jesuítas neste ponto: eles ensinam-nos bem a lógica do discernimento. Num mundo ruidoso, o desafio não é gritar mais alto, mas ensinar o jovem a baixar o volume para ouvir o essencial.
E, nós, jovens, precisamos de ter a coragem de navegar nesse mar de vozes, sabendo que temos “colo” para as viagens difíceis.

 

O que mais afasta e o que mais aproxima os jovens da fé?

Começo por desfazer um mito: ninguém tem «fé no acaso». A fé não é uma energia solitária, é fé numa Pessoa - se não tem pele, não é real.
Acredito que o que mais afasta é o medo, misturado com a ideia errada de que a fé tem de ser “cega”. Se alguém entrar aqui a correr e me disser que acabou de aterrar um helicóptero no bar da faculdade, eu não vou acreditar. A fé não é acreditar em “helicópteros no bar”; é confiar em algo que faz sentido, mesmo que não vejamos tudo. O que afasta é quando nos vendem a fé como um jogo de “cabra-cega”: tapam-nos os olhos e dizem «Anda lá, caminha!» - todos temos medo, temos dificuldade em deixar-nos guiar. Ninguém gosta de andar às escuras, e isto, paralisa.
O que mais aproxima é, sem dúvida, o sentido de pertença. O que atrai os jovens é sentirem que têm um lugar à mesa, que não estão ali por acaso. Vejo isso, por exemplo, nos grupos ligados a muitos movimentos que criam espaços onde se pode rezar, mas também rir, cantar e fazer “palhaçadas”. É nessa alegria partilhada, onde nos sentimos em casa, que a fé cresce.

 

Onde reside a atualidade da mensagem de Jesus?

Para mim, a mensagem de Jesus reside em dois lugares: no Rosto do outro (Mt 25, 35-40) e no Partir do Pão (Lc 24, 30-35). Primeiro, no rosto, na resposta que nos aparece numa conversa com alguém. É aí que Jesus reside. A mensagem d'Ele não é um texto antigo; é um encontro que acontece no agora, no rosto de quem se aproxima.
Mas para termos força para esse encontro, precisamos da segunda parte: a Eucaristia. A Bíblia diz que a «fé sem obras é morta» (Tg 2, 26), mas como é que eu posso ter boas obras se estiver “oco” por dentro? É na Missa que o peregrino enche a mochila e aprende a mexer melhor no “coração” de qualquer homem. Quando o padre diz «Ide em paz e o Senhor vos acompanhe!», não está a dizer «Acabou, vão-se embora». Está a dizer: «Já carregaram? Então agora vão melhorar o mundo.» A Missa não é um ponto de chegada, é o ponto de partida. Por que temos medo disso? Não estamos à espera de “segredos mágicos”; estamos à espera de força para caminhar. E é aí que Jesus se torna atual.

 

Que palavras partilharia com quem está em discernimento, vocacional ou pessoal, e ainda não encontrou respostas?

A primeira palavra é de paz: calma, ninguém cruzou a meta. Acredito que todos nós - tenhamos 20 ou 80 anos - estamos em discernimento.
Há uma frase famosa de Viktor Frankl que diz que a porta da felicidade abre para fora. Quem tenta forçá-la para dentro (fechando-se em si mesmo), acaba trancado.
Para quem procura uma resposta, a minha dica é arriscar tirar os fones. A resposta para a vocação não vai aparecer num ecrã nem no isolamento. Vai aparecer no “risco” do encontro. Não tenhamos medo de escutar o barulho do mundo e a voz de quem se senta ao nosso lado no autocarro. Porque, muitas vezes, Deus não grita; Deus sussurra na conversa que ainda não tivemos a coragem de ter.

 

Qual é a mensagem central deste Natal?

Há um anúncio de Natal de 2018 que, para mim, é a maior lição que podemos encontrar. O cenário era simples: várias famílias reunidas à mesa para o jantar de Natal, e um jogo - faziam-se perguntas e, se a pessoa errasse, tinha de se levantar e abandonar a mesa. O jogo começou e foi fácil - perguntavam sobre a vida dos famosos, sobre os influencers, sobre os filtros do Instagram. Toda a gente sabia responder, toda a gente ria. Tudo mudou quando as perguntas passaram a ser sobre a família: «Como é que os teus pais se conheceram?», «Qual foi o primeiro emprego da tua avó?», «Qual é o sonho que o teu pai nunca realizou?». Ninguém sabia. Um a um, tiveram de se levantar e sair. As cadeiras ficaram vazias. Quando vi senti um certo frio. É a prova de que sabemos tudo sobre o mundo digital, mas somos desconhecidos a jantar na mesma mesa.
A minha mensagem para o Natal é não deixar a cadeira vazia. Aproximar. Tocar. Falar. Largar o telemóvel, fazer as perguntas difíceis, descobrir os sonhos de quem vive connosco. A vida é o amor e a atenção que colocamos nela. Nas palavras de São João da Cruz - para o Natal e para a vida inteira - «No entardecer da vida, seremos julgados pelo Amor.».

 

18-12-2025