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João Couto: “Quero contribuir para que o artista em Portugal seja visto como alguém tão essencial no tecido social como qualquer outra profissão.”

João Couto é músico e atual estudante do Mestrado em Gestão de Indústrias Criativas da Escola das Artes. Licenciado em Som e Imagem pela mesma Escola, venceu o programa Ídolos em 2015, tendo sido este o ponto de partida para se dedicar inteiramente à música. Sobre a Licenciatura em Som e Imagem? “Abriu os meus horizontes”. Sobre o Mestrado em Gestão de Indústrias Criativas? “Quero entender qual é o futuro da indústria da música em Portugal”.

 

Em 2016, licenciou-se em Som e Imagem pela Escola das Artes da Universidade Católica no Porto. Porquê escolher estudar esta área?

Eu sabia que queria estudar a área do som. Sempre foi a minha paixão. A par disso, também, fui desenvolvendo algum gosto pela área da imagem. Soube que existia o curso de Som e Imagem numa feira de cursos que o meu colégio organizou e foi um dos cursos que me chamou logo à atenção, porque oferecia verdadeiramente a possibilidade de juntar teoria à prática. Também me motivou imenso o facto da Escola das Artes disponibilizar aos alunos meios e materiais para o trabalho prático na área, mesmo para projetos extracurriculares. Tinha muita vontade de começar a trabalhar e criar. Quando descobri que existia o programa das bolsas de mérito, trabalhei muito para garantir que tinha notas para ser elegível para a bolsa e posso afirmar, com orgulho, que consegui entrar no curso com a bolsa e mantê-la até ao fim da licenciatura.

 

“A licenciatura em Som e Imagem abriu os meus horizontes.”

 

Já havia em si uma clara tendência para a música?

Eu sabia que queria ser artista, que queria ser músico. Mas não sabia ainda exatamente que forma é que isso ia tomar e de que maneira o meu percurso académico ia influenciar esse meu caminho.

 

O que é que destaca da licenciatura em Som e Imagem da Escola das Artes?

A licenciatura em Som e Imagem abriu os meus horizontes. Fez-me perceber que, para além da música, eu tinha capacidade para fazer outras coisas e que tinha também paixão por outras áreas do som, como a rádio, as dobragens, a edição de som para vídeo e a edição de som para cinema. O curso é, verdadeiramente, abrangente e desafia-nos a sair da nossa zona de conforto. Havia disciplinas nas áreas do cinema, da produção, do audiovisual e outras mais que me deram uma bagagem muito completa. O curso proporcionou-me uma noção muito holística da multimédia.

 

2015 acabou por ser um ano muito marcante para si.

Sim, porque foi em 2015 que venci o programa Ídolos. Foi o que me permitiu, depois da licenciatura, seguir a carreira da música a 100%.

 

Como foi entrar no mundo da música?

Apesar de ter sido uma coisa muito desejada, a verdade é que quase tudo o que envolvia trabalhar no mundo da música foi uma novidade a partir do momento que entrei nessa realidade. Aprendi a movimentar-me no meio em tempo real, a conhecer as pessoas. Foi um percurso de descoberta e de aprendizagem. Comecei a escrever as minhas próprias canções e depois comecei a perceber que também o podia fazer para outras pessoas. Depois comecei também a produzir. Fui descobrindo e adicionando diferentes camadas ao meu trabalho. Atualmente, sou músico a tempo inteiro e trabalho maioritariamente no meu projeto a solo, mas colaboro também com outros projetos.

 

“Quero conhecer profundamente a indústria da música, ajudar a alavancar talentos (…)”

 

Atualmente, é, também, estudante do Mestrado em Gestão de Indústrias Criativas, também na Escola das Artes.

Com o mestrado, procuro profissionalizar a minha compreensão e atuação no mundo da música. Acreditei que era necessário ganhar um maior conhecimento do mercado e da indústria. Ser artista em Portugal é muito, muito difícil e eu senti isso na pele estes últimos anos, ainda para mais como artista independente. A experiência de trabalhar no setor independente despertou em mim a vontade de fazer a minha parte para melhorar este meio que me é tão próximo e considero tão essencial nas nossas vidas. A escolha deste mestrado prende-se precisamente com o querer ajudar quem entra neste meio e melhorar o rumo que a indústria está a tomar de alguma forma. Quero conhecer profundamente a indústria da música, ajudar a alavancar talentos e mostrar-lhes como gerir as suas carreiras e o seu repertório.

 

O que é que procura conhecer mais profundamente?

Quero entender qual é o futuro da música gravada em Portugal e não só. Como é que funcionam as associações ou editoras discográficas, majors e independentes? Quero saber como gerir um negócio desses num momento em que esses negócios têm um futuro cada vez mais incerto. Como é que a indústria se vai comportar no futuro? Quero fazer parte dessa construção. Além disso, quero contribuir para que o artista em Portugal seja visto como alguém tão essencial no tecido social como qualquer outra profissão… e temo que ainda haja muito trabalho a ser feito nessa frente.

 

Participou no Festival da Canção em 2024 com a música Quarto Para Um. Como é que foi a experiência?

Foi muito gratificante e desafiante ao mesmo tempo. Foi gratificante, em parte porque consegui entrar na corrida pelo processo de livre submissão, e isso deu-me uma alegria e confiança redobrada na direção musical que estava a explorar. Mas foi gratificante, acima de tudo, porque vivi a experiência com os meus amigos e a minha família. Criei memórias muito boas desse momento e devo-lhes isso. Por outro lado, foi desafiante, porque senti que tinha de fazer algo que surpreendesse o público e honrasse a escolha da RTP, e isso implicou um trabalho e rigor muito grande da minha parte. Quis explorar coisas que nunca fiz antes naquela escala e, por isso, lutei para que quaisquer ideias pré-concebidas sobre mim ou sobre o meu trabalho não afetassem o que eu imaginava para a atuação. Olhando para trás, acredito que consegui. Fiz uma atuação da qual me orgulho e na qual vejo felicidade estampada no meu rosto do início ao fim.

 

Também em 2024, o tema Ausente, que escreveu e produziu para a artista Mia Moura, foi nomeado para os Portuguese Music Awards, na categoria de melhor performance de fado. Como é que recebeu a notícia desta nomeação e que história é que conta esta música?

Recebi esta notícia com muito orgulho. Soube da novidade por e-mail, no dia em que regressei do Festival da Canção, e não podia ter ficado mais feliz. Quando me pedem canções faço-as de coração para quem as vai cantar, nunca é enviada uma "sobra" ou uma "rejeitada". Tento, tanto quanto possível, pôr o meu ego em segundo plano e servir a pessoa que a vai cantar e o ‘Ausente’ foi definitivamente um caso desses. Ver que uma canção que fiz dessa forma, que explora o momento delicado do fim de uma longa relação, foi nomeada para "melhor performance de fado" é testemunha do talento e da entrega da Mia como intérprete. É uma das minhas grandes alegrias na música: contribuir de alguma forma para que talentos como o dela possam mostrar ao mundo a sua verdade.

 

“Através da música, toda a gente se consegue entender.”

 

Qual é a importância da música na vida das pessoas?

Antes de ser músico, sou fã, por isso, sinto verdadeiramente o poder da música em mim. A música é essencial para o bem-estar das pessoas e é parte da nossa identidade, da nossa cultura e da nossa linguagem comum como cidadãos.

 

O que é que o inspira como artista?

A felicidade e o propósito que a música me dá é o que mais me inspira. Inspira-me o facto da música conseguir mudar o rumo das nossas vidas. A importância que a música tem, particularmente, na minha vida é o próprio alimento para que eu continue a criar. Sempre senti alguma dificuldade em comunicar desde muito novo e a música sempre foi o que me ajudou a expressar e a crescer. Quando dizem que é uma língua universal, é mesmo verdade. Revejo-me nisso. Através da música, toda a gente se consegue entender.

 

Artistas de referência?

Como compositor, o Paul McCartney será sempre a minha influência. Mas há muita gente que me inspira! A nível nacional, talvez o António Variações seja de momento a minha maior referência.

 

 

16-05-2024