
Inaugurada em 2021 na Pinacoteca de São Paulo e após a passagem pelo Museu de Arte do Rio em 2022, a exposição Enciclopédia Negra apresenta-se pela primeira vez em Portugal, na Sala de Exposições da Escola das Artes da Universidade Católica Portuguesa (Porto), inserindo-se no projeto investigativo Não foi Cabral: revendo silêncios e omissões que pretende fornecer novos questionamentos sobre o modo como a História é construída e como podemos de forma crítica criar novos mecanismos para a ler e interpretar.
Promovendo uma reflexão sobre as omissões e os silêncios da historiografia brasileira, a mostra com curadoria da antropóloga e investigadora Lilia Schwarcz, do historiador Flávio dos Santos Gomes e do artista Jaime Lauriano, amplia a visibilidade de personalidades negras, até hoje pouco conhecidas, da história do Brasil, com o objetivo de reescrever uma história apagada durante quase cinco séculos e de promover a sua representação visual. Sistematicamente e propositadamente silenciadas e invisibilizadas pela história oficial, a atuação das populações de origem africana no Brasil – país que socializou a escravidão como linguagem – é-nos revelada num projeto definido pelos seus autores como sendo um ato de reparação histórica, concreta e simbólica, e de política de memória: “Como diz o teórico Frantz Fanon e, no Brasil, o sociólogo Mário Medeiros, as populações negras falecem duas vezes. Fisicamente e falecem na memória”.
Integrada num amplo projeto que se iniciou em 2016, a exposição Enciclopédia Negra revela-nos mais de 100 obras, assinadas por 36 artistas afro-brasileiros, que se pautaram nos verbetes escritos para o livro homónimo que reúne 417 verbetes e mais de 550 biografias de personalidades negras. Constituído por dois corpos distintos e autónomos, mas complementares – o livro e a exposição –, o projeto Enciclopédia Negra revela-nos uma provocação no próprio título, ao recorrer ao modelo iluminista de Diderot, não para abordar os feitos das sociedades brancas, mas para dar a conhecer o protagonismo de negros/as/es no Brasil, desde os tempos coloniais aos dias de hoje.
