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Pedro Duarte e Joel Cleto refletem sobre a identidade do Porto na Universidade Católica

“O que faz de uma cidade aquilo que ela é?” É a pedra das suas ruas, a traça dos seus edifícios, os rostos que a habitam ou algo mais difícil de definir, construído ao longo de séculos? Foi em torno desta questão que se reuniram, num debate do ciclo Conversas sobre Ciências & Sociedade, o presidente da Câmara Municipal do Porto, Pedro Duarte, e o historiador Joel Cleto. Moderado por Paula Castro, diretora da Escola Superior de Biotecnologia da Universidade Católica Portuguesa, o debate procurou refletir sobre a identidade da cidade do Porto: o que ela é, de onde vem, o que a ameaça, para onde caminha.

A escolha do Porto como mote da conversa permitiu abordar a tensão da cidade entre o enraizamento e a transformação, entre o orgulho das origens e a pressão de um presente que muda a ritmos sem precedente. Como sublinhou Joel Cleto, "a identidade é algo de notável e tem muito a ver com as dinâmicas da sociedade"; não é um monumento fixo, é um organismo vivo.

Uma herança de 2500 anos

Para compreender o Porto de hoje, é necessário recuar na sua história. "Nas origens do Porto está lá tudo", afirmou Joel Cleto, com a convicção de quem dedicou décadas a estudar a cidade. "É uma cidade que só podia nascer onde nasceu, ali no morro da Pena Ventosa e na Sé. São 2500 anos de ocupação contínua da cidade", acrescentou, assinalando a relevância desse dado geográfico e histórico na génese da cidade, escolhida pela sua posição, pelo rio, pelo mar próximo, pela colina que domina a envolvente.

O historiador salientou ainda que a identidade resulta de um processo de continuidade entre gerações: "A identidade é algo que recebemos de gerações anteriores e que queremos passar às gerações seguintes. Recebemos, valorizamos e queremos projetar para o futuro".

A singularidade da identidade portuense

Pedro Duarte trouxe ao debate a perspetiva de quem governa a cidade, mas também de quem a vive enquanto habitante. "O Porto talvez seja uma exceção em termos de identidade", disse, reconhecendo que a palavra se tornou quase incómoda no discurso público. "É saudável falar em identidade, porque quase se tornou um termo maldito. É muitas vezes usada de forma abusiva, para marcar divergências, mas não nos podemos deixar condicionar."

As diferentes dimensões da identidade

Durante a conversa, foram identificadas várias dimensões da identidade da cidade. Pedro Duarte referiu uma dimensão física e patrimonial, associada ao património construído e aos espaços urbanos; uma dimensão simbólica e social, representada por elementos amplamente reconhecidos da cultura portuense, "como o Futebol Clube do Porto ou o facto de sermos conhecidos por trocar o v pelo b"; e uma dimensão imaterial.

"É emocional. Como dizia Agustina Bessa-Luís, ‘O Porto não é um lugar, é um sentimento’. Há um espírito tripeiro, muito próprio, mesmo com as naturais discordâncias que sempre existem na comunidade", partilhou Pedro Duarte.

Joel Cleto corroborou esta dimensão imaterial. "A identidade tem também uma dimensão imaterial e isso define o Porto, com tradições e memórias". Afirmou também que "o património tem muito de identitário e a identidade muito de patrimonial", evidenciando a relação entre a preservação do património e a construção da identidade coletiva.

No que respeita ao papel de instituições e símbolos da cidade, ambos os intervenientes reconheceram a sua relevância para a construção da identidade portuense. Joel Cleto observou que "hoje parte da cidade revê-se identitariamente com o Futebol Clube do Porto", enquanto Pedro Duarte incluiu o clube entre os elementos que contribuem para a dimensão simbólica e social da cidade.

Ainda assim, o historiador sublinhou que a identidade da cidade ultrapassa qualquer referência isolada, na perspetiva dos seus 2500 anos de história: "mais do que a forma, fundamental é a essência".

Transformação urbana e identidade

A evolução demográfica e urbana da cidade foi outro dos temas em destaque. A propósito da gentrificação, Joel Cleto contextualizou o fenómeno numa perspetiva histórica, lembrando que o Porto já viveu anteriores processos de transformação populacional e territorial.

"Tem-se falado muito de gentrificação ultimamente, mas esta gentrificação não é a maior que o Porto conheceu", afirmou. O historiador recordou as transferências populacionais ocorridas nas décadas de 1970 e 1980, quando “milhares de pessoas foram transferidas do centro histórico do Porto, onde viviam em ilhas verticais, insalubres e sem condições de habitabilidade, para os novos bairros de Ramalde ou Aldoar". Recordou ainda movimentos semelhantes registados no século XIX: “um grande número de famílias saiu do centro para geografias mais laterais, como Cedofeita ou Campanhã", acompanhados por novos fluxos migratórios, "provenientes de regiões como Trás-os-Montes, o Minho ou a Galiza".

Pedro Duarte reconheceu, por sua vez, que as transformações recentes colocam desafios importantes à preservação da identidade da cidade. "A demografia do Porto tem vindo a alterar-se, a economia mudou drasticamente, principalmente com a ascensão do turismo. Estes abalos trazem riscos à preservação desta identidade de que estamos a falar", referiu.

O presidente da Câmara reconheceu que a dinâmica económica recente "tem sido muito positiva para a cidade", mas refletiu que "há sempre um momento em que essa dinâmica pode deteriorar a identidade própria da cidade. E quando isso acontece, o Porto tal e qual o conhecemos fica em risco".

O papel das políticas públicas

O debate não podia deixar de abordar a responsabilidade das políticas públicas, em matéria de identidade. "A identidade tem uma abordagem cultural que o discurso político e as políticas públicas podem alterar de forma clara", afirmou Pedro Duarte, reconhecendo a importância de ações comprometidas com a preservação da identidade do Porto.

Por seu lado, Joel Cleto alertou para os riscos de uma visão excessivamente rígida da identidade, defendendo que esta se encontra em permanente construção e adaptação. "A identidade está permanentemente a ser moldada e se olharmos para ela de forma muito rígida pode dar mau resultado", observou, apontando para os riscos da cristalização pela nostalgia ou da encenação para consumo turístico – que ambos os oradores concordaram dever evitar-se.

Neste contexto, Pedro Duarte defendeu a importância de encontrar um equilíbrio entre a evolução da cidade e a preservação dos seus elementos fundamentais, privilegiando o bem comum: "É preciso um ponto de equilíbrio entre uma realidade de evolução e o elemento essencial que não podemos descurar".

Uma reflexão sobre o futuro da cidade

A sessão terminou com uma reflexão sobre os desafios que se colocam às cidades contemporâneas, face a transformações cada vez mais rápidas e em maior escala, e sobre a importância da identidade como fator de coesão social e qualidade de vida.

Como referiu Joel Cleto, "a qualidade de vida também passa pela valorização da identidade". Já Pedro Duarte destacou a persistência de um "espírito tripeiro, muito próprio", que continua a marcar a vivência da cidade.

Num diálogo entre história e política, entre passado e futuro, esta sessão do ciclo Conversas sobre Ciências & Sociedade evidenciou a importância de uma leitura abrangente e interdisciplinar das transformações sociais, culturais e urbanas que marcam a atualidade - uma abordagem que está também na base da Licenciatura em Ciências e Sociedade (Liberal Sciences), programa que inspira este ciclo de conversas.

26-05-2026