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Stress na Polícia: Estudo revela que a gestão das emoções é o fator mais importante para a saúde mental

Investigação com agentes da Polícia de Segurança Pública (PSP) do Porto mostra que a capacidade de regular as emoções protege o bem-estar dos profissionais muito mais do que os anos de serviço ou o posto hierárquico. Mais de um terço dos polícias regista stress elevado, mas a maioria não procura apoio devido ao estigma.  

Como lidam os agentes da PSP com o stress de uma profissão marcada pela exposição permanente a situações de risco e elevada exigência? Um estudo desenvolvido no Human Neurobehavioral Laboratory (HNL) do Centro de Investigação para o Desenvolvimento Humano (CEDH) da Faculdade de Educação e Psicologia da Universidade Católica Portuguesa (FEP-UCP) ajuda a responder a esta questão e traz novos dados sobre uma realidade ainda pouco estudada em Portugal.

A investigação, que tem Ana Moreno como primeira autora, e que foi recentemente publicada na revista científica “Policing: A Journal of Policy and Practice (Oxford University Press)”, conclui que os processos de regulação emocional têm um peso mais relevante na explicação dos níveis de stress do que fatores como os anos de serviço, o posto hierárquico ou o nível de escolaridade.

O estudo foi desenvolvido no âmbito do Doutoramento Internacional em Psicologia Aplicada da Faculdade de Educação e Psicologia da Universidade Católica Portuguesa (FEP-UCP), sob orientação de Patrícia Oliveira-Silva, docente da FEP-UCP, e coorientação de Rowena Hill, da Nottingham Trent University, e de Susanna Rubiol Vilalta, da Universitat Ramon Llull. A investigação em questão, designada “Policing, stress and coping: a characterization study with Oporto Portuguese Security Police Officers” contou ainda com a colaboração de Ted Scharf, do National Institute for Occupational Safety and Health (EUA).

"Sempre me cativou perceber melhor os constrangimentos e riscos que agentes da segurança enfrentam no seu dia-a-dia. Vi neste projeto uma oportunidade para estudar e promover a saúde mental de quem cuida da nossa segurança todos os dias, sobretudo considerando as tensões existentes entre a sociedade e a atuação policial", explica Ana Moreno.

A importância da gestão emocional

Realizado junto de agentes operacionais da PSP da Área Metropolitana do Porto, o estudo revelou que 35,3% dos participantes apresentavam níveis elevados de stress percebido.

Os resultados mostram que fatores tradicionalmente associados ao stress profissional, como o tempo de serviço ou o posto hierárquico, tiveram um impacto reduzido na explicação dos níveis de stress. Em contrapartida, os processos relacionados com a gestão das emoções revelaram um papel muito mais relevante.

A investigação analisou, em particular, a supressão emocional: a tendência para conter ou não expressar emoções. Embora esta estratégia seja essencial durante situações de emergência ou perigo iminente, o seu uso continuado, sem um momento posterior de processamento emocional, pode contribuir para a acumulação de stress e aumentar o risco de burnout, ansiedade e depressão.

"Dois agentes com o mesmo posto e os mesmos anos de serviço podem passar exatamente pelas mesmas situações de risco no âmbito do seu trabalho. No entanto, aquele que consegue identificar e diferenciar as suas emoções lida potencialmente muito melhor com o impacto da rotina do que aquele que enfrenta essas situações reprimindo aquilo que sente", afirma Ana Moreno.

Em sentido inverso, o estudo mostra que a capacidade de distinguir e compreender diferentes estados emocionais funciona como um importante fator de proteção, permitindo aos agentes lidar de forma mais adaptativa com as exigências da profissão.

O estigma continua a dificultar a procura de ajuda

A investigação evidencia igualmente uma reduzida procura de apoio psicológico. Apesar de mais de um terço dos participantes apresentar níveis elevados de stress, entre os agentes com níveis de stress acima do limiar clínico, apenas 16,7% procurou ajuda especializada.

Segundo Ana Moreno, estes resultados refletem o peso do estigma ainda associado à saúde mental nas forças de segurança, onde continua a prevalecer a imagem do agente "imperturbável", levando muitos profissionais a encarar a manifestação de vulnerabilidade como um sinal de fraqueza.

"A organização precisa de passar a ver a saúde mental não como um problema individual, mas como parte da ação e estratégia da própria instituição. O objetivo é ir além de ações de formação pontuais e da atribuição individual de responsabilidade pela saúde mental", defende a investigadora.

Da investigação à intervenção

O estudo integra o Mental Health NeuroForce Project, desenvolvido no HNL/CEDH, que pretende aplicar o conhecimento produzido nas áreas da psicologia cognitiva e da saúde psicológica a contextos profissionais de elevada exigência, contribuindo para o bem-estar dos profissionais de segurança e das comunidades que servem.

Os próximos passos passam pelo reforço da colaboração com os Mossos d'Esquadra, da Catalunha, e pelo desenvolvimento de programas contínuos de treino em competências emocionais, recorrendo a técnicas de mindfulness e biofeedback para ajudar os agentes a gerir melhor as emoções em situações de intervenção em crise.

A longo prazo, a equipa pretende contribuir para que estas práticas passem a integrar, de forma estruturada, a formação inicial e contínua das forças de segurança, promovendo uma abordagem mais preventiva da saúde psicológica.

 

27-08-2026