“Os jogos são o melhor processo de interatividade e, quando devidamente aplicados, são o processo de aprendizagem mais completo.”
Porque é que os jogos podem ser uma ferramenta tão importante no processo de aprendizagem?
Sabe-se que o processo de aprendizagem do aluno é valorizado através da chamada aprendizagem ativa - fazendo, construindo, desconstruindo. Mas a aprendizagem também decorre do desenvolvimento de competências, da exposição, observação e reflexão, da liberdade dada ao aluno para encontrar processos de autodeterminação - e da interligação de todos estes aspetos. A imersividade do jogador atinge níveis de profundidade impossíveis em qualquer outra situação de aprendizagem. Os jogos são, sem dúvida, o melhor processo de interatividade que existe e, quando devidamente aplicados à educação, são o processo de aprendizagem mais completo.
Com potencial para melhorar o atual paradigma de aprendizagem?
Para muitos alunos, a aprendizagem atualmente baseada em manuais e outros processos passivos é altamente ineficaz, desmotivadora e desenquadrada dos seus interesses. Já é possível encontrarmos algumas melhorias em áreas mais práticas, através de laboratórios digitais. Mas os processos digitais gamificados e sistemas baseados em jogos digitais são muito mais transversais, expansivos e económicos. Ao mesmo tempo, mecanismos específicos, como a introdução de narrativa, a exploração e interação livre e as simulações permitem um foco no desenvolvimento de competências, de forma autónoma, que nenhum outro sistema permite.
“Sem o mestrado [em Gestão] e sem o contacto com os professores que tanto me transmitiram, hoje não estaria onde estou.”
É mestre em Gestão, pela Católica Porto Business School. Porque escolheu a Católica?
Procurava um programa que respondesse aos meus interesses, que sempre foram muito transversais e expansivos, e que fosse lecionado numa escola de qualidade, com ligação ao tecido empresarial.
Como foi a sua experiência no mestrado?
A minha aprendizagem foi enorme. O "salto" cognitivo, uma grande evolução na minha capacidade de interligação de temáticas e na análise estratégica em várias áreas da gestão. Posso dizer com toda a certeza que, sem o mestrado e sem o contacto com os professores que tanto me transmitiram, hoje não estaria onde estou.
Quando surge o seu interesse pela área da gamificação?
Lembro-me de jogar os primeiros jogos de estratégia, como Age of Empires e Civilization, e de me aperceber do quão mais rapidamente aprendia com o jogo do que através de um manual escolar.
A ideia de usar mecanismos, sistemas e dinâmicas de jogos em contextos de ensino e aprendizagem acabou por surgir, por isso, naturalmente. Não reconhecia intencionalmente esse processo de gamificação - simplesmente, fazia-o, porque sentia que ia ser mais motivador. Foi num projeto de investigação sobre o tema que comecei a desenvolver, mais formalmente, estes conceitos. Fiz do interesse conhecimento e agora ensino gamificação a alunos de licenciatura e mestrado.
Integrou a equipa multidisciplinar da CPBS responsável pelo “Clique Financeiro”, vencedor do concurso “Economia para Todos”. Como foi o processo de desenho deste jogo?
O desafio era muito simples: auxiliar a aprendizagem de temas de literacia financeira - orçamentos pessoais, poupança, investimentos, financiamentos e consumo - através de um jogo. Pode ser muito tentador pensarmos num jogo que foque, de forma isolada, cada um dos conteúdos. Mas sabemos que nada tem mais valor do que a experimentação, a tentativa (mesmo que simulada através do jogo) e a análise do impacto. E por isso trabalhamos na simulação de contextos reais e na sua gamificação, que leva a mudanças de processos mentais quando o jogador procura aplicar esses conhecimentos no seu dia a dia.
Em que fase se encontra a gamificação em Portugal?
Encontra-se ainda numa fase de imaturidade conceptual, de resultados mistos e inadequados. A gamificação tem uma ligação muito próxima a áreas como UX, psicologia, sociologia, filosofia e ciências da educação. Pelas suas 3 principais vertentes: regras, mecanismos-dinâmicas e estética, pode resultar em impactos inesperados. O seu desenho e desenvolvimento devem ser considerados através de análises extensivas e deve ser um processo evolutivo, dinâmico, em que se procura adaptar a gamificação às necessidades dos utilizadores, em cada momento da sua experiência de utilização.
Foi da investigação que surgiu a ideia de criar uma empresa focada no desenvolvimento de jogos e recursos digitais educativos.
Parte do meu trabalho de investigação foca-se exatamente na criação de uma framework adequada e clara para a aplicação de jogos em contexto educativo. E, nesse processo, o protótipo parecia ser a única forma de identificarmos, em detalhe, impactos concretos. Assim surgiu a Kendir Studios.
Que papel quer desempenhar na evolução do ensino?
Gostava de conseguir fazer a diferença no ensino. Considero que será importante refletir e redesenhar o sistema educativo. Não o fazermos implica mantermos os problemas que os nossos alunos continuam a enfrentar, tanto em termos de motivação, como de resultados. Gostava de fazer parte desse progresso.
Há algum jogo que recomendaria particularmente?
O OpenTTD, um jogo gratuito para quem quiser aprender sobre gestão, um verdadeiro clássico. E recomendo também a pesquisa de novos jogos nas áreas de interesse de cada um – seja matemática, línguas, engenharia, gestão, ... Para uma nova perspetiva sobre o potencial dos jogos na educação e também para adquirir conhecimentos e aprofundar a curiosidade.