O projeto INCREASE (Intelligent Collections of Food Legumes Genetic Resources for European Agrofood Systems) foi uma iniciativa financiada pela União Europeia no âmbito do programa Horizon 2020, que decorreu durante seis anos (maio de 2020 a abril de 2026) com um orçamento de 7 milhões de euros.
O projeto reuniu 25 parceiros de 12 países, incluindo universidades, centros de investigação, organizações internacionais e empresas, com o objetivo de preservar e potenciar o uso sustentável dos recursos genéticos de quatro leguminosas alimentares essenciais: grão-de-bico, feijão comum, lentilha e tremocilha (lupino).
As leguminosas alimentares têm importância crescente nos sistemas alimentares europeus. Para além de serem fontes de proteína vegetal de elevada qualidade, representam uma alternativa sustentável à proteína animal, com menor impacto ambiental.
Diversidade genética das culturas agrícolas
A diversidade genética das plantas cultivadas é um dos recursos mais valiosos, e mais frágeis, da humanidade. É ela que permite desenvolver variedades capazes de resistir a pragas, doenças, secas e às alterações climáticas. Sem ela, os sistemas alimentares ficam vulneráveis.
Os bancos de germoplasma (ou "bancos de genes") conservam estas sementes e material genético há décadas. O problema é que a enorme quantidade de material armazenado é difícil de estudar e utilizar de forma eficiente pelos investigadores e melhoradores de plantas.
Foi precisamente aí que o INCREASE fez a diferença.
Principais resultados do projeto INCREASE
Um dos maiores contributos do projeto foi o desenvolvimento das chamadas "Coleções Inteligentes" (Intelligent Collections), subconjuntos cuidadosamente selecionados de recursos genéticos que representam, de forma eficiente, a diversidade existente nos bancos de genes.
Estas coleções combinam diversidade genética representativa, dados fenotípicos harmonizados (características observáveis das plantas) e informação genómica de alta resolução
Para o feijão comum, por exemplo, foram geradas cerca de 8 000 linhas geneticamente estáveis, apoiadas por sequenciação genómica extensiva e ensaios de campo em múltiplos locais europeus. No caso do lupino, trata-se da caracterização mais completa alguma vez realizada para esta cultura.
Estes recursos permitem aos investigadores e melhoradores identificar, de forma muito mais eficiente, características genéticas valiosas e desenvolver novas variedades adaptadas às condições ambientais em constante mudança.
Utilizando tecnologias avançadas de genómica e "ómicas", o INCREASE identificou regiões genéticas importantes em várias leguminosas. No grão-de-bico, regiões associadas à tolerância à seca, na lentilha, genes que ajudam as plantas a adaptarem-se a condições de altitude, no feijão comum, genes que conferem resistência a doenças.
Combinando estes dados com novos métodos estatísticos, os cientistas conseguem agora identificar genes cujos efeitos dependem do ambiente em que a planta cresce. Esta informação alimenta modelos preditivos que permitem determinar quais as variedades mais adequadas a cada contexto, hoje e no futuro, face às alterações climáticas.
Mais de 27 000 pessoas a conservar sementes
Um dos elementos mais inovadores e visíveis do projeto foi a experiência de Ciência Cidadã (Citizen Science Experiment), centrada no feijão comum.
Milhares de cidadãos europeus, em jardins, escolas e espaços urbanos, cultivaram variedades de feijão, registaram as características das plantas e partilharam as suas observações através de uma aplicação móvel desenvolvida no âmbito do projeto.
A adesão superou as expectativas. Foram mais de 27 000 cidadãos registados ao longo de seis épocas de cultivo e centenas de escolas envolvidas, sensibilizando as gerações mais jovens para a agrodiversidade.
O resultado foi o estabelecimento de uma rede descentralizada de conservação, complementar aos bancos de genes tradicionais.
Este modelo inovador de conservação foi possível graças a um enquadramento legal claro, incluindo o Standard Material Transfer Agreement (SMTA) para a troca rastreável de sementes, no âmbito do Tratado Internacional sobre os Recursos Fitogenéticos para a Alimentação e a Agricultura da FAO.
O reconhecimento não tardou e a Experiência de Ciência Cidadã do INCREASE foi galardoada com o Prémio da UE para a Cidadania e Ciência.
Mais de 150 parceiros institucionais
O projeto contou com um Stakeholder Consortium com mais de 150 membros, incluindo instituições de investigação, bancos de genes, empresas de melhoramento vegetal e redes agrícolas.
Estes parceiros contribuíram ativamente para a avaliação, multiplicação e uso dos materiais genéticos desenvolvidos no INCREASE, assegurando que os resultados chegam à prática.
Portal de Dados: ciência acessível a todos
Para maximizar o impacto a longo prazo, o projeto desenvolveu o INCREASE Web Portal, uma plataforma de acesso aberto que reúne dados de passaporte, fenotípicos e genómicos sobre os recursos genéticos das leguminosas alimentares.
A plataforma segue os princípios FAIR (Findable, Accessible, Interoperable, Reusable), tornando os dados do projeto disponíveis e reutilizáveis por investigadores, melhoradores e outros interessados em todo o mundo.
Qual o legado do projeto INCREASE?
O projeto INCREASE terminou, mas o seu impacto prolonga-se no tempo. Os recursos genéticos, os dados e as ferramentas desenvolvidos continuam disponíveis para bancos de genes, investigadores, melhoradores e agricultores em toda a Europa e além-fronteiras.
A iniciativa de Cidadania e Ciência terá continuidade através da associação Diversitas, criada para explorar oportunidades de prolongar a comunidade de conservação descentralizada e as atividades de investigação participativa iniciadas pelo projeto.
Portugal participou no consórcio através da Universidade Católica Portuguesa (UCP), uma das 25 instituições parceiras. No âmbito do projeto, a UCP caracterizou cerca de 1 300 amostras de feijão comum, representativas de acessões cultivadas ao longo de dois anos e em três locais: Espanha, Itália e Polónia.
As análises incluíram a proteína total, o teor fenólico total, os minerais essenciais e o teor de hidratos de carbono, óleo e humidade, contribuindo para a avaliação da qualidade nutricional e das interações genótipo × ambiente.
Além disso, a UCP contribuiu para a Experiência de Ciência Cidadã INCREASE, apoiando atividades de divulgação e promovendo o envolvimento do público na conservação e avaliação dos recursos genéticos do feijão comum.
08-06-2026