MONSIEUR VERDOUX
de Charles Chaplin
Portugal, 1947, 124'
Sinopse
Um Barba Azul moderno, Henri Verdoux é um funcionário bancário que perdeu o emprego com a crise económica dos anos 20. Passa então a dedicar-se à sedução de mulheres ricas e solitárias, que mata consecutivamente para se apoderar das suas heranças.
Folha de sala
“Monsieur Verdoux ou a morte do Vagabundo”
por Luís Mendonça (Professor universitário e programador de Cinema)
Antes de mais, importa contextualizar historicamente este algo menosprezado filme de Chaplin, não só na história do cinema – e do seu cinema, o mesmo que parece abraçar a humanidade de maneira, diria, universal – como na própria história com “h” maiúsculo ou, se quisermos chamá-la, “no cinema da história”.
Como observou o crítico francês Serge Daney também a propósito do cómico francês Jacques Tati, Chaplin é um dos últimos cineastas em que é nítido o ponto de intersecção entre os humores da História e o correspondente “comentário” cinematográfico. Isso aconteceu, de maneira muito clara, com um filme como Shoulder Arms, obra realizada em 1918, sobre as condições pestíferas que afligiam os soldados na frente de batalha, durante o primeiro conflito mundial. Trata-se de um filme ainda hoje insuperável na sua força “documental”, fazendo da sátira o meio para “reportar” as dificuldades e desconfortos inomináveis que os soldados enfrentavam (antes de enfrentarem o inimigo propriamente dito) – soldados que são mostrados aqui, na figura heterotópica do Vagabundo, qual corpo histórico (e histérico), como pessoas comuns, isto é, como nós, espectadores, “we, the people”.
Em Modern Times (1936), Chaplin reflecte sobre o desastre dessa etapa histórica chamada Revolução Industrial e das suas promessas de felicidade e bem-estar universais, que acabaram por conduzir a uma nova forma de escravatura, associada à desumanização das condições de trabalho decorrentes da automatização do trabalho industrial, isto é, da entrada em cena – ou tomada de assalto – da máquina como “grande ditadora” de um trabalho ainda assim executado, em última instância, por Homens – pessoas como nós, espectadores, “we, the people”. No filme imediatamente anterior a Monsieur Verdoux, Chaplin interpela directamente a História, como que se intrometendo, qual emplastro providencial, no xadrez geopolítico que ameaçava pôr fim a tudo aquilo em que “Chaplin, o humanista” acreditava. De maneira quase literal, o corpo de Chaplin coloca-se entre Mussolini e Hitler, estragando-lhes “a fotografia” (estrondoso photobombing) e ensaiando um bailado, entre o sublime e o ridículo, que se propõe puxar o tapete por debaixo dos pés (de barro) da ideologia maquinal (ultra-racional, desumanizadora) dos fascismos, assente na destruição do que é diferente e visando, enfim, colocar o Homem contra o Homem. O discurso final de Chaplin, fazendo-se passar por Hitler para lhe dar, nele e contra ele, a pirueta mais audaz da história do cinema (e do cinema da história?), era recebido como um retumbante apelo à reconciliação do Homem com a sua humanidade (antes que fosse tarde de mais...). Aconteceu em pleno conflito e, mais tarde, Chaplin arrepender-se-á dessa audaciosa forma de intervenção política e histórica, considerando-a pueril face à descoberta, a posteriori, da expressão do mais inominável horror: a realidade dos campos de concentração
Monsieur Verdoux nasce da ressaca desse choque, desse entrelaçamento (conseguido ou não) entre cinema e História. No entanto e curiosamente, como quem combate o fogo com fogo, tudo em Verdoux, a personagem, é dessa mesma ordem do histórico. Se no início, parece que estamos na presença de uma farsa eivada de humor negro – um travo demasiado amargo face à típica comédia chaplinesca – posteriormente dá-se nova pirueta mor(t)al: ouvimos da boca do “barba azul”, aparentemente o mais desprezível dos seres, um discurso que nos soa familiar. João Bénard da Costa, na Folha de Sala da Cinemateca Portuguesa, descreve o movimento do filme de maneira clara: começa em registo de farsa e termina em plena tragédia, sendo que, ao mesmo tempo, assistimos à (re)chaplinização de Chaplin em Verdoux, já que este se vai aproximando do Vagabundo e dos tais apelos lançados a uma humanidade enredada na intriga sinistra (cada vez mais velada/sofisticada) dos totalitarismos. No final, damos de caras – se não no corpo, na voz e no que esta diz, de lá para cá – com a personagem intemporal do Vagabundo, mas a esse reconhecimento segue-se um outro, dos mais terríveis na filmografia de Chaplin: a da sua condenação à morte, que, quase no mesmo instante, se nos afigura inescapável ou inapelável. É o último e o mais duro dos filmes de um Chaplin ainda Vagabundo, na medida em que este – como uma espécie de novo Cristo – acaba condenado por uma sociedade – pelo modo de funcionamento desta sociedade saída da Guerra – que cegou face à crueldade mais insidiosa.
Chaplin voltaria a “intrometer-se” no (dis)curso da História em A King of New York (1957), satirizando toda uma sociedade – a americana – empenhada na perseguição inclemente ao pensamento livre – o McCarthismo, vulgo “Caça às Bruxas”. Nesse filme, o protagonista interpretado por Chaplin, o tal rei em visita à América, é alvo de uma perseguição ad hominem, não muito diferente daquela que visou o próprio Chaplin, por alegadamente ser comunista, e que o conduziu ao seu exílio forçado na Suíça. Desde Monseur Verdoux, a personagem do Vagabundo – maior do que a vida e do que a História, mas ao nível do último dos Homens, o mais esquecido e espezinhado – vai morrendo aos poucos, ao mesmo tempo que entramos na era do cinismo e, se não dos “mass murders”, dos “mass media”.
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