A consciência da própria mortalidade constitui o lugar da suprema interrogação sobre o sentido do Humano. Luís Archer, o Jesuíta que marcou o mundo da ciência na segunda metade do séc. XX em Portugal como pioneiro da genética e da bioética, num texto publicado em 1986* lança um alerta: a grande confrontação que vai eclodir no despontar do novo milénio entre o Humano como o conhecemos e o paradigma então emergente das tecnociências – o tecnocosmos. A pós-mortalidade prática em que vivemos, embora agora abalada pela traumática experiência da pandemia, é uma das expressões deste novo paradigma.
O processo cultural trans-humanista em curso e a era pós-humana do mundo que se auto-promete, alcançável pelas possibilidades abertas pelas nanotecnologias, biotecnologias, tecnologias da informação e neurociências constituirão a derrota do Humano, no confronto predito pelo jesuíta-cientista? E a morte? Subsistirá como esperança de redenção ou o anseio de imortalidade transmutar-se-á na possibilidade de viver sem morrer? E numa Universidade Católica, chamados a fazer a articulação entre cristianismo e cultura, que papel nos cabe no desígnio, formulado por Luís Archer SJ, de participar na elaboração da transcendência salvadora de um novo humanismo?
A Aula Aberta realiza-se no âmbito da unidade curricular Cristianismo e Cultura, do Programa de Dupla Licenciatura em Direito e em Gestão, com o Professor P.e José Nuno Ferreira da Silva (coordenador da UC).
*Na intervenção “O homem perante o tecnocosmos emergente da biologia”, proferida no “Congresso Internacional Estruturas emergentes para uma nova revolução nas ciências”, e, organizado em Lisboa pelo Centro Internacional de Epistemologia e Reflexão Interdisciplinar do Instituto Piaget, publicada na revista Brotéria em janeiro de 1986.
09.12.2021 10:00 — 11.12.2021 19:00 Edifício das Artes / Arts Building
[e]motion
I Graduate Conference on Science and Technology of the Arts
9,10 e 11 de Dezembro 2021 Auditório Ilídio Pinho
Keynotes and Artist talk
Doug Bailey
Marc Leman
Sasha Litvintseva & Beny Wagner
A nossa relação com o corpo e o mundo material tem vindo a transformar-se, respondendo a um processo gradual de digitalização, em larga medida potenciado pela pandemia COVID-19. Entendendo-se a urgência de refletir sobre o lugar da fisicalidade e da (i)materialidade no nosso tempo, a primeira Graduate Conference on Science and Technology of the Arts irá focar no entrelaçamento de conceitos como o de movimento e o de emoções, partindo de abordagens interdisciplinares de e para as artes e/ou património.
Quando poucos acreditavam que, a uma crise pandémica e económica, se juntasse uma crise política pela dissolução da Assembleia da República, eis que estamos perante a convocação de novas eleições em janeiro do próximo ano.
Nesta sessão, olharemos para a situação do país sob dois pontos de vista:
1. Como chegámos até aqui?
A dissolução da AR era a única solução constitucionalmente viável, tendo em conta os poderes do Presidente da República? E politicamente, haveria alternativa à convocação de novas eleições?
2. O que podemos esperar daqui para a frente?
Que reconfigurações podemos esperar, à esquerda e à direita? Estaremos perante um novo ciclo com o efeito da eleição de Carlos Moedas em Lisboa? Perante um cenário de crescente polarização, o que mobiliza os eleitores para o voto? Continuaremos a testemunhar um aumento da abstenção?
Para os alunos ADN, a presença na Sessões Premium é obrigatória para manutenção no programa.
A talk by Daniel Vieira Luís, scientific director of HeartGenetics.
Daniel Vieira Luís tem formação académica em bioquímica e genética molecular e biomedicina. É cientista sénior de genética e investigador na área da química medicinal, com foco na caracterização in vitro de actividade antitumoral.
The world population is estimated to exceed over 9 billion by 2050 which will result in a growth in the demand for animal-derived foods with the consequences of unsustainable environmental impacts and resources wastefulness. In the light of these evidences, the production and consumption of insects could be a solution as an alternative and sustainable food. Insects provide a valuable source of high-quality proteins, lipids and minerals. So, new insights on their safety, health benefits and new formats to be delivered as ingredient will boost their consumption and acceptance.
The world population is estimated to exceed over 9 billion by 2050 which will result in a growth in the demand for animal-derived foods with the consequences of unsustainable environmental impacts and resources wastefulness. In the light of these evidences, the production and consumption of insects could be a solution as an alternative and sustainable food. Insects provide a valuable source of high-quality proteins, lipids and minerals. So, new insights on their safety, health benefits and new formats to be delivered as ingredient will boost their consumption and acceptance.
26.11.2021 18:30 Edifício das Artes / Arts Building
Masterclass Porto/Post/Doc
Erika Balsom
26 NOV 2021 · 18h30 · Auditório Ilídio Pinho
Ideias Para Adiar o Fim do Mundo · Approaching James Benning
Quando James Benning começou a fazer filmes, afirmou sentir-se "como um artesão". De facto, a princípio ele não tinha qualquer formação técnica. Tinha, isso sim, dois diplomas em Matemática, algo que os críticos mencionam quando pretendem destacar o rigor de filmes como Ten Skies e One Way Boogie Woogie. O realizador adora rodagens fortemente marcadas regras - mas não como um fim em si mesmo. A precisão formal do seu cinema nunca foi formalista, é antes uma forma de aguçar o olhar e encontrar liberdade nas restrições. Ao longo de cinquenta anos, o artista filmou crónicas da hegemonia e contra-hegemonia americanas, produzindo uma história não convencional da colonização, da violência racial, do uso das terras e do sentimento de despertença.
A masterclass integra a programação do Porto/Post/Doc: Film & Media Festival e ocorrerá na sexta-feira, dia 26 de Novembro, 18:30, na Escola das Artes.
Erika Balsom · Professora de estudos fílmicos no King’s College, em Londres, é autora de quatro livros, sendo o mais recente, Ten Skies, integralmente dedicado ao filme homónimo de James Benning. Os seus artigos científicos foram publicados em revistas como Screen, Cinema Journal e Grey Room. É também crítica, escrevendo regularmente para a Artforum, 4Columns e CinemaScope.
Acesso: Entrada livre sujeita à lotação do espaço.
O evento decorrerá seguindo as orientações das autoridades sanitárias e de trabalho relativamente aos procedimentos e práticas de segurança e à saúde no contexto da pandemia COVID-19. No local estão em vigor as seguintes regras:
Utilização obrigatória de máscara
Desinfecção das mãos com álcool-gel à entrada (disponível no local)
24.11.2021 16:30 Edifício das Artes / Arts Building
Masterclass Porto/Post/Doc
Theo Anthony
24 NOV 2021 · 16h30 · Auditório Ilídio Pinho
A propósito da retrospetiva dedicada ao trabalho de Theo Anthony, o realizador partilhará com o público em geral os seus métodos criativos, os seus processos de investigação e, partindo do seu percurso, demonstrará como é possível definir e desenvolver uma voz autoral no universo do cinema documental. A masterclass integra a programação do Porto/Post/Doc: Film & Media Festival e ocorrerá na próxima quarta-feira, dia 24 de Novembro, 16:30, na Escola das Artes.
Acesso: Entrada livre sujeita à lotação do espaço.
O evento decorrerá seguindo as orientações das autoridades sanitárias e de trabalho relativamente aos procedimentos e práticas de segurança e à saúde no contexto da pandemia COVID-19. No local estão em vigor as seguintes regras:
Utilização obrigatória de máscara
Desinfecção das mãos com álcool-gel à entrada (disponível no local)
22.11.2021 18:30 Edifício das Artes / Arts Building
Artist Talk
MC CAROL, FAROFA, DJ DORLY
22 NOV 2021 · 18H30 · Auditório Ilídio Pinho
Na próxima segunda-feira, dia 22 de Novembro, 18:30, a Escola das Artes será palco para uma conversa — ou como definem os seus intervenientes, uma “roda” — entre a Mc Carol, Farofa e DJ Dorly onde, ao abrigo do tema anual da escola, REPAIR, se discutirá o trabalho da Mc enquadrando-o nas reverberações políticas e culturais do baile funk, e na forma como este está a ser instrumentalizado por toda uma nova geração de artistas.
Acesso: Entrada livre sujeita à lotação do espaço.
O evento decorrerá seguindo as orientações das autoridades sanitárias e de trabalho relativamente aos procedimentos e práticas de segurança e à saúde no contexto da pandemia COVID-19. No local estão em vigor as seguintes regras:
Utilização obrigatória de máscara
Desinfecção das mãos com álcool-gel à entrada (disponível no local)
Registo de participantes à entrada
Distanciamento entre lugares
Medição de temperatura
PORTUGUÊS ABAIXO
VOICING VOICES
— A Brief Note on MC Carol’s Artist Talk at the School of Arts
During Salomé Voegelin’s “To Know From the Invisible” [1] the writer and researcher briefly sketched an argument where sound, due to a cultural and historical inadequacy in being described or characterised by itself (e.g. a grey sound, a heavy sound) — a problem that usually gets solved by turning it into an index, where sound becomes the sound of something —, should be regarded not as an object (noun), but as a process in the making (verb). In that, sound would unfold as a procedural entity, an irresolvable and transitory haptic function reverberating within a world.
In being read as a potential in action, sound would then stand as a material negation of static classifications, a palpable deflection of deterministic structures, an optimal reconfiguring tool defined and made valuable precisely by virtue of its sub-optimality — never fitting, thus always rearranging. If one brings such conception of sound into voiced speech, doubts regarding the traditionally disposable role attributed to voice-as-sound as a mere “vanishing mediator” [2] within the process of speaking begins to emerge, resulting in rifts that arguably, and hopefully, can only be patched by what Adriana Cavarero describes as a “thinking with the lungs” [3].
When one listens to MC Carol’s words beingwilfully exhaled against — always against, never through — a microphone asdeep and wide breaths,at that point, her words are themselves presented as thought formed in and by the lungs. Such voicing which, like the early recordings of Ivy Queen [4], is a voicing founded in a deep time buried in the throat, instantly underlines thehow, in detriment of thewhat. The usually primary formal what — the what is being said — is then overthrown by the active deployment of a materialhow— ahow is that voice voicing, and ahow much of that voicing is thought and discourse in itself.
The sonichowof MC Carol’s discharges bring to surface the urgency of its imperativewhy. The material complicity between thehowand thewhy, which sounds greater than the complicity celebrated by thewhatand thewhy, can perhaps be justified by the fact that they share a common ground — the positionality of a mouth, a throat, a skin, of bowels. Both interrogations share the same answer. How such a voice? Due to a mouth, a throat, a skin, bowels. Why such a voice?Due to a mouth, a throat, a skin, bowels.
The pressure from which MC Carol’s voice emerges bears not only a discourse, but a mode of discourse and reasoning whose presence is pivotal in any institution that wishes to call itself “universal”, and where such universality is deemed be obtained by the articulation of a large spectrum of “faculties”. Facing such requirement, the Artist Talk between MC Carol, Rafael Henrique Victório AKA Farofa and DJ Dorly aims to offer a framing into the MC’s work by using it as a navigation tool to explore the socio-cultural implications of the Brazilian Baile Funk scene, and how such sounds are being and have been weaponised by artists and communities as means of mobilisation and assertion.
[2] Mladen Dollar (2006) A Voice and Nothing More.
[3] Adriana Cavarero (2005) For More Than a Voice: Towards a Philosophy of Vocal Expression
[4] Alexandra T. Vazquez (2009) Salon Philosophers: Ivy Queen and Surprise Guests Take Reggaetón Aside
VOCALIZAÇÃO DA VOZ
— Breve Nota sobre a Conversa com MC Carol na Escola das Artes
Durante a aula aberta de Salomé Voegelin “To Know From The Invisible” [1], a escritora e investigadora esquissou brevemente um argumento onde o som, devido a uma inadequação cultural e histórica em ser descrito ou caracterizado em si mesmo (um som cinza, um som pesado) — um problema que normalmente é resolvido transformando-o em um índice, onde o som se torna no som de algo —, deve ser considerado não enquanto um objeto (substantivo), mas como um processo em formação (verbo). Nesse sentido, o som ocorre enquanto entidade procedimental, enquanto uma função háptica, transitória e irresolúvel, que reverbera num mundo.
Se lido na qualidade de potencial em ação, o som resulta numa negação material a classificações estáticas, num desvio palpável a estruturas determinísticas, numa ferramenta ideal de reconfiguração devido precisamente à sua subotimalidade — nunca adequado, logo, sempre reestruturante. Ao enquadrar tal concepção de som no discurso falado, emergem dúvidas relativamente ao tradicional papel descartável reservado à voz enquanto “mediador evanescente” [2] no ato da fala; fendas que discutivelmente, e esperançosamente, podem ser emendadas através daquilo a que Adriana Cavarero descreve como o “pensar com os pulmões” [3].
Ao ouvir as palavras da MC Carol deliberadamente exaladas contra — sempre contra, nunca através de — um microfone quais profundos e dilatados fôlegos; nesse momento, essas palavras assumem-se como pensamento formulado nos pulmões. Tal vocalização, próxima à audível nas primeiras gravações de Ivy Queen [4], ostenta um voz originada num tempo profundo (deep time) instalado na garganta, evento que, por si só, sublinha ocomo(how) em detrimento do oquê(what). Assim, o usualmente primárioquêformal — o que é que está a ser dito — é destronado pela difusão de umcomomaterial — umcomo é que aquela voz de vocaliza, e umcomo é que tal vocalização é pensamento e discurso em si.
Ocomosónico das exalações da MC Carol revelam a urgência imperativa do seuporquê. A cumplicidade material celebrada entre ocomoe oporquê, que ressoa mais veementemente do que a aliança entre oquêe oporquê, pode eventualmente ser justificada pelo facto de ambas partilharem solo comum — a posicionalidade de uma boca, de uma garganta, de pele e vísceras. Ambas as interrogações partilham a mesma resposta.Comotal voz? Devido a uma boca, uma garganta, uma pele e vísceras.Porquêtal voz? Devido a uma boca, uma garganta, uma pele e vísceras.
A pressão da qual brota a voz da MC Carol transporta não apenas discurso, mas modo discursivo e argumentação cuja presença se revela pivotal em qualquer instituição que almeje estatuto “universal”, e cuja universalidade se forma precisamente a partir da articulação de um vasto espectro de “faculdades”. Perante tal requisito, a conversa entre MC Carol, Rafael Henrique Vitório, vulgo Farofa, e DJ Dorly pretende enquadrar o trabalho da MC utilizando-o enquanto ferramenta de navegação para explorar as implicações sócio-culturais plasmadas na cena do Baile Funk brasileiro, e indagar sobre a forma como tais sonoridades são, e têm vindo a ser, instrumentalizadas por artistas e comunidades como modos de mobilização e afirmação.
Diogo Tudela
Novembro 2021
[1] Aula aberta leccionada por Salomé Voegelin enquanto parte do Programa Aberto da Escola das Artes “ART / THOUGHT / SOUND — Knowing Through Sound”.
[2] Mladen Dollar (2006) A Voice and Nothing More.
[3] Adriana Cavarero (2005) For More Than a Voice: Towards a Philosophy of Vocal Expression
[4] Alexandra T. Vazquez (2009) Salon Philosophers: Ivy Queen and Surprise Guests Take Reggaetón Aside