Quais são as suas melhores memórias de infância?
Domingos! Esses eram os dias marcados por uma indumentária mais catita para ir à missa, um almoço com pratos especiais e com várias “etapas”, uma tarde entretida com alguma atividade ou uma visita a algum sítio, tempo em família, tartes de maçã ou de amendoim… e o sentido de tempo, com tempo (se faz sentido). E férias em Sesimbra com os meus tios e únicos primos da minha idade, com muita gargalhada e aventuras adolescentes. Saudades!
Porquê escolher estudar Engenharia Alimentar?
A minha entrada em Engenharia Alimentar foi um pouquinho tumultuosa. Coincidiu com a primeira vez que a prova geral de acesso foi implementada em Portugal, e muitas greves de professores, que atrasaram e confundiram a transição para o Ensino Superior. De início, pensei em seguir Engenharia Química, porque gostava de Matemática e Química. No entanto, não foi muito difícil sentir que Engenharia Alimentar se alinhava com os meus objetivos de carreira quando me informei sobre a licenciatura. Combinando com o prestígio, a reputação e a qualidade de ensino da Universidade Católica, a progressão foi quase orgânica. Lembro-me de começar o ano letivo e os meus colegas do ensino secundário estarem ainda incertos do futuro. Entretanto, estava já eu a ter aulas com professores fabulosos que me atraíram a ficar, mesmo quando fui aceite na Universidade pública. A previsibilidade, a segurança e estrutura do curso foram-me imediatamente evidentes. Todo o ambiente era obviamente estimulante – as pessoas, os temas, a diversidade das aulas, o edifício, as interações com colegas e professores, assim como o envolvimento na aprendizagem.
“Estudar Engenharia Alimentar na ESB ultrapassou o exercício de acabar cadeiras.”
Qual é a importância de ter estudado na Escola Superior de Biotecnologia?
Houve uma altura em que senti que literalmente vivia na Escola Superior de Biotecnologia. Vim a saber mais tarde que os trabalhos de casa que nos davam, assim como os trabalhos de grupo, intencionavam promover o vínculo à Escola. Olhando para trás, vejo que a experiência foi valiosa, porque me ensinou resiliência, determinação, trabalho de grupo, gestão de tempo, comunicação e camaradagem. Estudar Engenharia Alimentar na ESB ultrapassou o exercício de “acabar cadeiras”: foi uma experiência pessoal que me ensinou a sobreviver, a pensar e conceber estratégias na carreira futura.
Que características acha imprescindíveis para quem trabalha em Ciência e Investigação?
Serenidade e curiosidade. Serenidade para evitar sentir-se sobrecarregado com a quantidade, diversidade e progressão da informação científica. Curiosidade para continuar a aprender. Especificamente, como mulher e nos EUA, e talvez surpreendentemente, a serenidade é também importante para manter a linha de dignidade e calma num mundo ainda muito dominado por membros masculinos, principalmente em papéis de autoridade.
Quais são as memórias mais marcantes de ter estudado na Católica?
A ESB ensinou-me a pensar de uma forma confiante e autossuficiente. Ter feito o estágio foi também uma experiência única, que me viria a influenciar o resto da minha vida, já que aqui ainda estou. Na Católica tivemos para a maioria das cadeiras a oportunidade de aprender conceitos em aulas laboratoriais em que tínhamos disponível o equipamento mais atual à época. Se na altura achei que tivemos mais aulas destas do que preferia, agora valorizo intensamente esta oportunidade. O mais marcante de tudo deixei para o fim: as amizades que se criaram. Penso que a educação e atividades na Católica promoveram modelos sociais positivos e construtivos, que ajudaram a cimentar estas ligações pessoais.
Depois de terminada a licenciatura, começa logo a desenhar-se uma vida nos Estados Unidos da América…
O meu estágio de fim-de-ano foi em Baltimore, nos EUA. Quando acabei, o professor António Moreira, que pertencia à Direção da Escola Superior de Biotecnologia e era professor na UMBC, onde estagiei, propôs a ideia de eu voltar para um doutoramento. Curiosamente, até aquele momento nunca tinha pensado nessa opção, mas o convite fez-me pensar. Senti que era uma experiência que precisava de explorar. O programa académico, o ambiente americano perto de Washington DC, o despertar de uma vida mais independente, e o desenvolvimento de boas amizades mantiveram-me aqui. Confesso que houve um desafio sério na motivação quando o tempo se estendeu mais do que esperava. Mas acho que a preparação que a ESB me deu, me “seguraram” e me mantiveram focada. Ao fim de aproximadamente 6 anos, a graduação aconteceu e tive então a oportunidade de trabalhar numa empresa em Nova Jersey. Um plano que antecipava ser de 1 ano, transformou-se numa vida aqui, já por quase 30 anos.
“O período mais desafiante foi ver o “sangue e lágrimas” que estava a ser investido no projeto.”
Trabalha na AstraZenena. Em que consiste a sua função?
Quando vim para a AstraZeneca fui adotando responsabilidades relacionadas com projetos incrementalmente mais maduros no seu ciclo de desenvolvimento. O processo incluiu a participação e liderança de várias equipas e a preparação de submissões de documentos para o lançamento comercial de medicamentos como o Imfinzi e Fasenra. Neste momento sou um dos líderes de grupo no departamento de Purificação, na parte de biológicos da AstraZeneca. Tenho uma equipa sobre a qual tenho responsabilidades de gestão direta. É uma equipa diversa e que adoro, com especialidades, personalidades e ascendências diferentes: Americana, Chinesa, Suíça, Indiana e Iraniana. O meu papel tem incluídas responsabilidades de inovação técnica, desenvolvimento de estratégias nas formas como trabalhamos e liderança de equipas de CMC (Chemistry, Manufacturing and Controls). Este último papel é particularmente interessante – é uma oportunidade de gerir todas as funções que são necessárias para trazer um composto terapêutico a estudos clínicos, incluindo a manufatura, logística e aspetos de regulamentação. É o equivalente a sermos CEOs do nosso próprio projeto e influenciarmos o seu desenvolvimento através de várias áreas funcionais. Simultaneamente, tenho a exposição a parte de desenvolvimento clínico e médico. Sendo uma empresa internacional, frequentemente tenho múltiplos membros da equipa em outras partes de globo, nomeadamente Inglaterra e Suécia, o que cria também oportunidades únicas. É fascinante ver quantos elementos se consolidam para iniciar ou progredir uma terapia em estudos clínicos. Estar perto da FDA (cerca de 15 km) oferece também a vantagem de ter acesso a diversas conferências e seminários com acesso facilitado a apresentadores.
A Astrazeneca ficou na boca do mundo por causa da pandemia da Covid-19. Como é que descreve esse período?
A Astrazeneca não tinha a tradição de ser produtora de vacinas e ter que aprender e implementar tanto e em tão pouco tempo foi um desafio. Contudo, todas as prioridades e recursos foram concentrados na produção de terapias que pudessem ajudar o Mundo a prevenir ou a mitigar os sintomas da Covid-19. Essa estratégia facilitou a rapidez do desenvolvimento da vacina e anticorpos. Apesar de ter sido um período difícil, foi também um período de aprendizagem e experimentação com novas maneiras de trabalhar. Por natureza, a indústria farmacêutica tende a ser muito cautelosa, por razões óbvias já que erros podem incorrer em danos humanos irreparáveis. A pandemia imprimiu uma confiança renovada na organização, na realização do seu conhecimento, no que consegue e na maturidade da preparação para outra potencial situação de crise. Não é por acidente que a importância de “prior knowledge”, ao lado de “machine learning” sejam áreas com possibilidades renovadas. A participação no desenvolvimento da vacina foi limitada a um grupo específico de indivíduos que tinham maior conhecimento de elementos do projeto e outros que asseguraram as interações com organizações de manufatura por contrato (CMOs) a volta do Mundo. A minha participação foi periférica, mas testemunhei colegas que trabalharam incessantemente, sem fins-de-semana, por meses a fio, para garantir o sucesso e a eficácia da vacina. Na minha perceção, a vacina foi infelizmente influenciada por elementos políticos da época que dominaram o nível e a clareza da informação. A interpretação da pandemia, a evolução do vírus, a comunicação da eficácia das vacinas e estatísticas requereram um entendimento que não era linear e portanto difícil de processar pelos meios sociais e público em geral. O período mais desafiante foi ver o “sangue e lágrimas” que estava a ser investido no projeto, e a catarata de informação confusa e frequentemente parcial que era lançada ao público. Foi preciso muita resiliência, determinação e dedicação nesse período para o esforço se manter focado.
O que é que mais a fascina na área em que trabalha?
A falta de rotina. Quando entrevisto candidatos que me perguntam como posso descrever um dia de trabalho típico, respondo sempre com um sorriso, porque “típico” não é uma palavra que posso usar ou que sei descrever no meu ambiente de trabalho. Obviamente há atividades regulares, reuniões ou certos documentos que são precisos, mas o que me fascina e me aterroriza ao mesmo tempo é a dicotomia de produzir terapias seguras e eficazes, mas utilizando uma grande variedade de técnicas e estratégias. Como cada terapia tem as suas próprias características e plano clínico, cada caso é um caso. A multiplicidade de outputs, a fluidez e a natureza competitiva da indústria biofarmacêutica, com a progressão cada vez mais rápida da integração de conhecimentos de biologia, engenharia, estatística, logística e regulamentos resultam num ambiente constantemente estimulador. Em conclusão, o desafio constante e o trabalho fabuloso que as equipas conseguem alcançar (quando são coesas e partilham uma visão comum) são os elementos que me fascinam na minha área de trabalho.
“Convido Portugal a olhar para si e não esquecer as suas tradições e o seu calor humano.”
Quais são os principais desafios de quem trabalha na área da Ciência?
Manter-se atual e focado. O conhecimento científico está a progredir cada vez mais rápido e mais integrado com outras áreas científicas. Flexibilidade e visão, o que é, de certa forma, contraditório com a ideia de “especialidade”, são talentos de alto valor. Pessoalmente, o aceitar a falta de conhecimento e manter a mentalidade de “pupilo”, apesar dos anos de carreira, são chave para poder evoluir e experimentar realidades fascinantes, assim como exercer funções de autoridade num ambiente incrementalmente multidisciplinar. Uma outra dimensão que verifico ser extremamente importante e menos obvia para cientistas: a capacidade de comunicar e motivar, com confiança e entusiasmo.
Vive no estado de Maryland. O que é que mais gosta na vida que tem nos EUA?
Vivo agora muito perto de Gaithersburg. O que gosto muito na vida aqui é a oferta de experiências – museus, embaixadas, vinhas, música, espetáculos, a cultura de “can-do”, o nível geral de informação e preparação académica nesta área, a enorme diversidade social e com esta diversidade surge também a diversidade também de gastronomia étnica. Apesar de haver muitas coisas que aprecio nos EUA, sinto imensas, e cada vez mais, saudades de Portugal – a nossa música, a nossa melancolia, o nosso sentido de amizade, origem e família. A cidade onde estou é dominada por cadeias de lojas e restaurantes. Tenho muitas saudades das “lojas do Sr. José”, das padarias com pão quente, onde existe ainda a interação humana. Os EUA têm muita coisa boa e bonita, mas convido Portugal a olhar para si e não esquecer as suas tradições e o seu calor humano.
O que é que a move na vida?
Amizades genuínas, o desafio de fazer algo novo e impactante e contribuir positivamente na vida de uma ou várias pessoas.