É estudante do terceiro ano da Dupla Licenciatura em Direito e em Gestão. Como descreve a sua experiência na Universidade Católica?
Encontrei bons amigos, professores que se interessam mesmo pelos alunos e um ambiente onde é fácil sentir-me em casa. Há um espírito académico e um conjunto de iniciativas que fazem com que a faculdade não seja só o sítio onde vamos ter aulas, mas o sítio onde realmente crescemos e gostamos de estar; penso que é isso que faz a diferença.
“Desenvolvi competências que surgem da conciliação do rigor e do detalhe do raciocínio jurídico com a visão mais prática da Gestão”
Porque escolheu a Dupla Licenciatura em Direito e Gestão?
Confesso que a Gestão veio primeiro e veio cedo. Ainda era miúdo e já folheava o Jornal de Negócios, embora, sendo honesto, não fosse pela economia, mas sim pelo futebol. Lembro-me das letras pequeninas, e de me perder a tentar decifrar os números dos clubes, as transferências, as receitas televisivas. Foi aí que percebi que havia uma lógica económica a sustentar tudo aquilo de que eu mais gostava. Já o Direito chegou mais tarde, e por uma porta menos óbvia. Cresci a achar que ser advogado era o que vemos nos filmes, defender em tribunal alguém que cometeu um crime. Foi o meu pai que me mostrou que o Direito é muito mais do que isso, e que estas matérias estão profundamente ligadas ao dia a dia das empresas, à forma como nascem, contratam e crescem. Quando percebi isso, o Direito deixou de me parecer um mundo à parte e passou a fazer todo o sentido ao lado da Gestão. No 10.º ano descobri a Dupla Licenciatura e foi quase imediato: percebi que era ali que as duas coisas se encontravam.
Que competências considera ter desenvolvido ao conciliar duas áreas de estudo tão exigentes?
A competência que mais valorizo foi aprender a estudar de outra maneira. No secundário estudava sozinho e à minha hora; aqui percebi depressa que isso não chegava. Passei a estudar com os colegas de turma, a discutir a matéria em conjunto e a falar com colegas mais velhos para ganhar perspetiva sobre cada cadeira. Aprendi que pedir ajuda não é fraqueza, é a forma mais inteligente de avançar. Desenvolvi ainda outras competências, que surgem da conciliação de duas formas de pensar muito diferentes: o rigor e o detalhe do raciocínio jurídico, de um lado, e a visão mais prática da Gestão, do outro. Habituar a cabeça a mudar de registo, e a gerir o tempo entre duas faculdades, foi provavelmente o melhor treino que podia ter tido.
Faz parte da Católica Students’ Consulting desde 2023. O que o levou a integrar este grupo? De que forma é que complementa a sua formação académica?
Entrei na CS'C no meu primeiro mês de faculdade e, sem dúvida, foi a melhor decisão que tomei até hoje. Foi na Empower Week que vi o banner da Católica Students' Consulting e percebi ali uma oportunidade de experimentar na prática aquilo que ia aprendendo na teoria. Desde esse semestre que tenho conhecido pessoas incríveis, que me ajudam a olhar para o mundo de outra forma e a perceber melhor o que se passa à nossa volta. Mais do que isso, a CS'C dá-nos um contexto para experimentar as nossas ideias sem medo de errar, ou de tirar pior nota. É um espaço onde podemos ver a realidade por dentro, perceber as falhas e pensar em soluções, sem a pressão de quem está mesmo a arriscar o seu negócio. Para um estudante, esse laboratório é impagável: completa a teoria com aquilo que nenhum manual ensina.
A Católica Students’s Consulting criou uma forma de promover a consignação dos impostos a causas sociais através do projecto “Bottle Up – Leva contigo a Tua Causa”. Em que consiste o projeto?
O projeto “Bottle Up – Leva contigo a Tua Causa” propõe um canal de comunicação alternativo: garrafas reutilizáveis de inox, distribuídas de forma cirúrgica no Grande Porto, com um QR code gravado que liga o utilizador a uma landing page dedicada às organizações parceiras. A ideia surgiu num voluntariado na Refood, em que participei através da CS'C. Foi lá que percebemos uma coisa: é normal algumas ONGs gastarem muito dinheiro em comunicação de visualização única, flyers, presenças em eventos, anúncios online, comunicação que dura uns segundos, não cria impacto e é facilmente esquecida.
A partir daí começámos a pensar se não haveria uma forma mais duradoura de passar a mensagem, algo que não vivesse só 15 segundos e que pudesse acompanhar-nos no dia a dia, quase como se cada pessoa fosse um “pequeno outdoor” de uma causa em que acredita. Algumas associações já tinham pensado em chapéus ou t-shirts, mas eram artigos sazonais ou de uso ocasional. Foi aí que surgiram as garrafas reutilizáveis.
A Bottle Up distribui garrafas personalizadas, entregues gratuitamente com água num dia de calor pelas ruas do Porto. A entrega num dia quente cria um impacto imediato, mas a verdadeira força vem depois, quando a garrafa entra no quotidiano das pessoas, em casa, no trabalho ou num piquenique com amigos, e a mensagem da causa anda sempre com elas. Em vez de uma publicidade que se deita fora, uma publicidade que dura.
“Se há altura na vida em que sobra tempo, vontade e algum atrevimento para mudar as coisas, é agora.”
O projeto tem como intuito sensibilizar para a consignação de 1% do IRS para causas sociais. Qual é que considera ser o motivo que justifica a ainda baixa adesão a esta possibilidade?
Acho que o motivo principal é o desconhecimento. Muita gente não sabe que esta consignação existe e, sobretudo, não sabe que não lhe custa rigorosamente nada, porque aquele 1% sai do imposto que já se pagou ao Estado, não do bolso de quem consigna. Como ninguém o explica, na dúvida as pessoas preferem não arriscar e deixam o campo em branco.
A isso somam-se outros fatores. A forma pouco eficiente como as próprias ONG comunicam esta possibilidade entre março e julho, que é exatamente quando as pessoas estão a tratar do IRS ou da sua pré-consignação; o facto de não ser um campo de preenchimento obrigatório na declaração, o que leva a maioria a passar à frente; e o facto de, muitas vezes, ser outra pessoa a tratar do IRS por nós, o contabilista ou um familiar, que não tem a sensibilidade nem o conhecimento das causas que nós apoiaríamos.
No fim, a consignação perde-se não por falta de vontade, mas por falta de informação e de um pequeno empurrão no momento certo. É aí que entra a Bottle Up, porque a distribuição física das garrafas, acompanhada de uma explicação simples das vantagens de consignar o 1%, é a forma de dar esse empurrão, cara a cara, a quem de outra maneira nunca pararia para pensar no assunto.
Acredita que os jovens podem ter um papel mais ativo na promoção de causas sociais?
Sim, e acho que muitos já o fazem. No meu caso, a Bottle Up é a forma de pôr aquilo que vou aprendendo, um pouco de Gestão, um pouco de Direito, ao serviço de uma causa. Mas há exemplos muito melhores à minha volta. Como é exemplo a Missão País. Quando se conhece este projeto, fica-se com uma clara noção de quanta energia a nossa geração tem para dar. Se há altura na vida em que sobra tempo, vontade e algum atrevimento para mudar as coisas, é agora.
Também está envolvido em várias iniciativas de voluntariado. Há alguma iniciativa que o tenha marcado particularmente?
Marcou-me particularmente uma oportunidade que tive de dar formação de literacia financeira a adolescentes. É um voluntariado pouco tradicional, mas dos que mais sentido me fizeram, porque é numa fase decisiva da vida que se retém quase tudo, e pouquíssimos jovens têm contacto com estes temas. Explicar a alguém de quinze anos o que é um orçamento, ou porque é que começar a poupar cedo muda tudo, é dar-lhe uma ferramenta que a escola raramente oferece.
De que forma é que o voluntariado desempenha um papel importante na formação de um estudante?
O voluntariado tira-nos da nossa bolha, põe-nos a trabalhar com pessoas muito diferentes de nós e obriga-nos a olhar para o mundo com mais atenção.
Que planos tem para o futuro?
A curto prazo, continuar a desfrutar do curso e a aprender o máximo possível. Mas se a pergunta for mais profunda, costumo responder o que respondo desde miúdo, quando me perguntavam “o que queres ser quando fores grande”: quero ser feliz. E, para isto não ficar só por uma frase bonita, para mim tem uma direção concreta. Gostava de seguir um caminho profissional que mantivesse as portas abertas entre o Direito e a Gestão, em que pudesse continuar a perceber necessidades reais e a tentar resolvê-las, seja com a Bottle Up, seja com o que vier a seguir. Não tenho um plano fechado, e acho que está bem assim, desde que continue a fazer coisas que valham a pena. E, sobretudo, aproveitar estas aventuras que tanto me acrescentam para conhecer pessoas incríveis pelo caminho, daquelas que transformam os momentos difíceis, quando tudo parece correr mal, em histórias que mais tarde recordamos a rir.