É licenciado e mestre em Psicologia pela Faculdade de Educação e Psicologia da Católica. Porque escolheu a Universidade Católica para estudar?
A decisão de estudar na Católica resumiu-se a 3 fatores: a credibilidade da Universidade e o perfil do corpo docente, o acompanhamento próximo dos alunos e a entrada com bolsa de mérito no curso. Recordo a minha experiência na Católica com carinho e saudade!
“Se não pudermos curar, podemos cuidar. Se não conseguimos reparar algo, podemos acompanhar e estar presentes e disponíveis”
A sua tese de mestrado centrou-se na Experiência de Perda e no Processo de Luto, no contexto de uma Unidade de Cuidados Paliativos. O que é que destaca deste seu projeto de investigação?
Destacaria o papel da Espiritualidade. A Espiritualidade é um fenómeno incrível através do qual se podem encontrar recursos extraordinários de esperança, resiliência, capacidade de adaptação e perspetivas sobre a vida. No Luto, a Espiritualidade é um facilitador da continuidade da ligação com a pessoa perdida. Seja através de crenças religiosas, ou de formas únicas e criativas de pensar sobre a vida, a morte e a posterioridade, foi uma das dimensões que mais sobressaiu na forma como as pessoas que participaram no estudo se reorganizavam após a perda de alguém próximo e significativo.
De que modo essa investigação e os estágios em contexto hospitalar marcaram a sua forma de estar enquanto psicólogo?
Mostraram-me o potencial da Psicologia, quer enquanto ciência que nos permite compreender fenómenos complexos e subjetivos, quer enquanto área de intervenção que nos permite modificar crenças, atitudes, estados emocionais e comportamentos. Trabalhar em contexto hospitalar, e em particular em Cuidados Paliativos, permite-nos um entendimento muito próximo da vulnerabilidade, do sofrimento e da superação humana. Estas experiências mostraram-me como mesmo perante circunstâncias de vida tão complexas e difíceis, como acontece com o aproximar do fim da vida, há sempre algo que podemos fazer. Se não pudermos curar, podemos cuidar. Se não conseguimos reparar algo, podemos acompanhar e estar presentes e disponíveis. É a liberdade última de cada pessoa, escolher a forma como encara as circunstâncias que enfrenta, como afirmou Viktor Frankl.
“É na necessidade contínua de ser cada vez melhor que encontro a principal motivação para continuar a aprender.”
Mais tarde, decidiu fazer uma pós-graduação em Inovação e Empreendedorismo. Porque fez sentido juntar estas áreas à Psicologia?
Sempre pensei na Psicologia como uma área científica com grande potencial para se fundir com outras áreas, sendo a Economia e a Gestão um dos exemplos. Ter ideias é fácil. Mas é na execução destas ideias que muitos projetos falham. Ao longo do seu percurso académico na Universidade, os psicólogos aprendem muito sobre Psicologia, mas pouco sobre outras áreas. Vi na Inovação e Empreendedorismo a oportunidade perfeita para aprender modelos, processos e sistemas, que me aproximaram da área da Gestão, e me deram bases sólidas para idear e concretizar diferentes ideias ao longo do meu percurso. Recordo-me de ouvir o Professor Pedro Dias falar sobre a importância destes temas, e encontrar aí a certeza de que esta seria uma aposta vencedora.
Ao longo do seu percurso, tem trabalhado em contextos muito diversos: hospitais, lares, ONG, associações profissionais. Qual é hoje o maior desafio para quem trabalha com sofrimento psicológico?
Os psicólogos que só sabem de Psicologia vão encontrar sérios desafios neste tipo de trabalho. Intervir sobre o sofrimento psicológico, é na verdade, intervir com a Pessoa em sofrimento. O conhecimento do ponto de vista técnico (de diagnóstico e intervenção) é necessário, mas insuficiente. Qualquer intervenção eficaz será sempre realizada a partir da qualidade e profundidade da relação e conexão que se constrói com o Outro em sofrimento. Esta relação é como uma ponte, a partir da qual se transportam mercadorias valiosas (técnicas de intervenção). Os psicólogos mais eficazes sabem muito de Psicologia, mas exploram também outras áreas relevantes: da Biologia e Neurociências, à Economia e Gestão, ou da Sociologia à Literatura. O principal desafio para qualquer profissional que trabalha com sofrimento psicológico é encontrar um posicionamento em que consegue estar próximo, mas robusto emocionalmente. O sentir e o pensar são ambos importantes. Mas o desafio é conseguir que o sentir não se sobreponha ao pensar.
A formação contínua tem sido uma constante no seu percurso, incluindo psicoterapia, supervisão e docência. O que o motiva a continuar a aprender?
Vivemos num mundo cada vez mais VUCA (volátil, incerto, complexo e ambíguo). Com a aceleração da velocidade a que o mundo se transforma, surgem desafios novos e realidades diferentes de forma contínua. As competências são fundamentais, e muitas vezes, transcendentais. Mas o conhecimento está a ficar com um prazo de validade cada vez mais curto.
Há 15 anos, inovar era visto como um nice-to-have, uma ferramenta de “ataque” para impulsionar a diferenciação. Hoje a inovação é um must-have e uma ferramenta de “defesa” sem a qual ficamos desatualizados e, consequentemente, com uma eficácia de ação diminuída. A formação contínua é por isso imprescindível. Procuro que tudo o que faço profissionalmente seja intencional, rigoroso e útil, e que sobretudo acrescente valor aos contextos e pessoas em que intervenho. É na necessidade contínua de ser cada vez melhor que encontro a principal motivação para continuar a aprender.
Fundou e envolveu-se em vários projetos focados no desenvolvimento de competências pessoais e profissionais, como o Coaching Students to Success. O que é que o atrai neste tema?
Sempre ouvi que a missão da Educação era preparar para a vida. Ao iniciarmos o nosso percurso, desde o Primeiro Ciclo ao final do Ensino Universitário, as notas continuam a ser principal métrica de desempenho, maioritariamente obtidas a partir de testes e exames, para os quais o principal incentivo é memorizar (temporariamente) conteúdo para a obtenção de um valor numérico. No entanto, ao transitarmos para o mercado de trabalho, percebemos rapidamente que as notas deixam de ser uma métrica de desempenho, assumindo as competências este papel.
Este fenómeno, apelidado pelo World Economic Forum de “skills gap”, despertou o meu interesse para o papel e valor fundamental das competências transversais. Ou seja, competências com impacto do ponto de vista profissional, mas também pessoal. Vejo no desenvolvimento de competências pessoais e profissionais um dos melhores antídotos para o panorama de imensa estagnação que encontramos na Educação atualmente: conteúdos obsoletos, metodologias pedagógicas desatualizadas, e um foco excessivo em conteúdos e notas.
É CEO do Next Level Hub. O que é que o levou a empreender no mundo da Psicologia?
No Next Level Hub definimo-nos como uma empresa de inovação em comportamento humano. A Psicologia está no centro do que fazemos, mas o nosso trabalho cruza também várias outras áreas (da Psicoterapia às Neurociências, da Economia Comportamental à Gamificação) permitindo-nos desenvolver soluções mais completas para desafios humanos complexos.
Atuamos em dois grandes contextos. Na Educação, através do Next Level Hub, desenvolvemos programas de soft skills premiados para crianças e jovens, bem como formação dirigida a contextos educativos. No contexto organizacional, através da Next Level Corporate, desenhamos e implementamos programas de desenvolvimento totalmente customizados para empresas, em áreas como liderança, cultura organizacional, change management, saúde mental e comunicação estratégica. Construir e fazer crescer esta empresa tem sido uma aventura exigente, mas profundamente apaixonante. Somos uma equipa de psicólogos - cerca de 80% formados na Universidade Católica Portuguesa - unidos por uma forte ambição comum e por uma cultura muito alinhada. Aquilo que estamos a construir juntos é um dos pilares mais fortes do nosso trabalho.
O que é que mais o entusiasma?
Aquilo que mais me entusiasma é a possibilidade de transformar conhecimento em ação, passar dos problemas para as soluções, e das palavras para o impacto real. Seja ao concretizar a nossa visão de sermos “os parceiros perfeitos da Educação”, seja ao transformar a capacidade das organizações em potenciar pessoas, cultura e desempenho, sentimos que estamos a contribuir para um movimento cada vez mais relevante: aplicar a ciência do comportamento humano para criar contextos onde pessoas e organizações podem realmente prosperar.
Que mensagem deixaria a estudantes ou jovens profissionais que procuram tirar o melhor de si, pessoal e profissionalmente?
Work hard, play hard. Porque feitos extraordinários surgem de uma dedicação extraordinária. Mas essa dedicação à vida profissional nunca deve ser feita à custa da vida pessoal. Tal como fazem os atletas de alta competição: treinam com estratégia e intensidade, mas são igualmente rigorosos e comprometidos com a forma como recuperam e cuidam do seu equilíbrio.