Como surgiu o seu interesse pela área da Psicologia?
A minha ligação à Psicologia começou discretamente através de livros de desenvolvimento pessoal que o meu pai me oferecia durante a minha adolescência. Obras como Os 7 Hábitos dos Adolescentes Altamente Eficazes, de Sean Covey, ou Anormalmente Bom, de Nuno Fontes, abriram conversas sobre temas como comportamento, emoções e processos de pensamento - sem que eu soubesse, na altura, que estava a explorar fundamentos da psicologia. Fascinava-me a ideia de que uma mudança de perspetiva tem o poder de transformar o que sentimos, como agimos e, em última instância, quem somos. Quando, mais tarde, associei esse interesse à Psicologia enquanto disciplina, a decisão de a seguir foi menos uma escolha e mais uma descoberta sobre mim própria.
“Surgiu um tema sobre o qual não tinha dúvidas que queria aprofundar, e o doutoramento era o caminho natural para o fazer.”
É estudante de Doutoramento em Psicologia Aplicada na Faculdade de Educação e Psicologia da Universidade Católica Portuguesa. Porquê esta escolha?
Este programa foi, para mim, uma escolha evidente - não só por ser lecionado em inglês, língua à qual estou habituada em contexto académico, mas também porque me ofereceu um equilíbrio que procurava. Após alguns anos fora, quis regressar a Portugal sem, no entanto, fechar a porta a uma eventual continuação de carreira no Reino Unido. Este doutoramento permitiu-me fazer exatamente isso: estar em Portugal, mas manter uma ligação ao contexto académico internacional. Estou a aproveitar o melhor dos dois mundos, e a aprender muito com as diferenças entre duas culturas académicas que, sendo distintas, têm cada uma os seus pontos fortes. Quanto à temática sobre a qual me tenho debruçado, foi o mestrado em Terapias Psicológicas, onde estava a construir o meu caminho para a psicologia clínica, que me conduziu a um tema que foi crescendo em mim de forma inesperada: a saúde mental das mulheres durante a menopausa. Trata-se de uma área profundamente subinvestigada, que considero urgente explorar. Foi esse sentido de necessidade, juntamente com o interesse que desenvolvi pelo tema, que me levou a querer continuar. Sendo honesta, o doutoramento nunca tinha estado nos meus planos. O que aconteceu foi que surgiu um tema sobre o qual não tinha dúvidas que queria aprofundar, e o doutoramento era o caminho natural para o fazer.
Como tem sido a sua experiência no doutoramento?
Tem sido uma experiência muito positiva. Tenho a sorte de ter orientadores que me apoiam e cujo conhecimento, experiência e dedicação ao meu projeto têm feito toda a diferença. O doutoramento exige autonomia e uma gestão do tempo que, de certa forma, se assemelha a trabalhar por conta própria. Ainda assim, nunca me senti sozinha: o corpo docente tem superado as minhas expectativas, não só pela excelência científica, mas sobretudo pela disponibilidade para ouvir e ajudar. Estou a aprender coisas que nunca imaginei explorar, e uma das grandes mais-valias deste programa é precisamente essa proximidade com os professores.
“A saúde da mulher tem sido historicamente negligenciada, e isso é um problema global.”
Atualmente, está a desenvolver uma investigação sobre a saúde física e psicológica das mulheres entre os 40 e os 55 anos. Como surgiu o interesse por este tema?
É dentro desta faixa etária que a maioria das mulheres experiencia a perimenopausa - a fase de transição hormonal que antecede a menopausa. O meu interesse por este tema surgiu de uma experiência pessoal: testemunhar de perto o impacto que esta fase pode ter no bem-estar de uma mulher próxima. Na altura, eu própria estava a atravessar a adolescência, e não pude deixar de reparar nas semelhanças: alterações de humor, irritabilidade, mudanças no corpo físico - tudo despoletado por alterações hormonais. A grande diferença é que a adolescência é universalmente reconhecida e, de certa forma, socialmente tolerada. A menopausa, nem tanto. Na altura em que atravessam esta fase, a maioria das mulheres tem responsabilidades profissionais a tempo inteiro, são cuidadoras, têm compromissos que não "permitem" uma fase de maior instabilidade. E, no entanto, a perimenopausa acontece, com ou sem espaço para isso. O que mais me marcou foi o silêncio à volta do tema: a falta de conversa, a falta de informação e, muitas vezes, a falta de reconhecimento por parte de quem rodeia estas mulheres, até dos próprios profissionais de saúde. Quando comecei a aprofundar a investigação existente e a perceber que muitos profissionais de saúde não se sentem preparados para lidar com pacientes nesta fase da vida, por lacunas na sua formação médica, a vontade de contribuir para esta área tornou-se muito clara. Encaro o meu projeto de investigação como uma missão!
Quais são os principais objetivos do estudo que está atualmente a desenvolver?
O estudo tem dois objetivos principais. Em primeiro lugar, identificar quais os sintomas subjetivos que as mulheres associam à perimenopausa, com particular atenção aos sintomas cognitivos, como alterações na memória e na atenção. Em segundo lugar, comparar dados entre mulheres em Portugal e no Reino Unido, de forma a perceber se existem diferenças nas perceções dos sintomas e em que medida fatores relacionados com saúde e estilo de vida influenciam a sua intensidade.
É importante dar maior visibilidade científica a esta fase da vida das mulheres?
Absolutamente. A saúde da mulher tem sido historicamente negligenciada, e isso é um problema global. Estamos em 2026 e só agora estamos a descobrir, por exemplo, que as alterações hormonais da menopausa colocam as mulheres em maior risco de desenvolver doenças cognitivas, como a doença de Alzheimer, ou doenças cardiovasculares. Só recentemente foi reconhecido que os sintomas de ataque cardíaco nas mulheres diferem dos sentidos pelos homens - o que significa que há mulheres que sofreram ataques cardíacos sem que ninguém, incluindo elas próprias, o soubesse. Da mesma forma, a terapia de reposição hormonal - o tratamento mais direcionado para os sintomas da menopausa - foi durante muito tempo considerada de risco, e só recentemente começou a ser reabilitada na comunidade médica. Por todas estas razões, dar visibilidade científica à saúde da mulher nesta fase da vida, e em todas as outras, não é apenas importante, é urgente. A boa notícia é que o interesse está a crescer: cada vez mais investigadores se dedicam a esta área, e organizações de grande dimensão estão a reconhecer e a investir neste tema. O meu projeto pretende ser uma contribuição, ainda que modesta, para essa mudança.
"Encaro o meu projeto de investigação como uma missão!"
Que perspetivas tem para o futuro e que áreas gostaria de continuar a explorar?
Para além do estudo que estou atualmente a desenvolver, já tenho planeados os próximos passos da minha investigação. Um dos estudos que pretendo realizar procura medir, de forma objetiva, a performance cognitiva de mulheres na perimenopausa que experienciem sintomas de "brain fog" - um termo que descreve a sensação de nevoeiro mental, dificuldades de concentração e lapsos de memória. O objetivo será uma potencial validação científica daquilo que as mulheres reportam há muito tempo. A longo prazo, o meu objetivo é especializar-me na saúde cognitiva das mulheres durante a perimenopausa e aprofundar a compreensão de como as variações hormonais influenciam a performance cognitiva nesta fase da vida.