Que memórias guarda da sua infância?
Eu sou filho de pais açorianos. Muitos dos meus parentes foram para a América, outros para o Canadá, e só a minha família é que foi para o continente, para uma aldeia no concelho de Sintra, onde vivíamos um bocado isolados. O que eu guardo com maior saudade, que é uma coisa que recorre muito na minha poesia, é o cheiro a pinheiro. A minha infância é o cheiro a pinheiro.
Como é que surgem os estudos clássicos na sua vida?
O meu pai era de uma aldeia muito pobre, Rabo de Peixe, e naquele contexto, só ia estudar ou quem tinha posses ou quem a Igreja pudesse tomar sob a sua alçada. Na altura, havia uma missão holandesa por ali, repararam no meu pai, e foi para o seminário, onde estudou latim. Cresci com ele a falar e a ensinar-me sobre a etimologia das palavras. A minha mãe é de filosofia, portanto também estava sempre a falar do grego. O bichinho das clássicas sempre foi demasiado forte, pelo que na Faculdade optei pelo curso de Línguas e Literaturas Clássicas, onde me formei em latim e grego.
E continuou os estudos nesta área...
Depois fiz o mestrado em Literatura Latina, o doutoramento também, em torno da obra de um dos grandes poetas da antiguidade, que é Horácio, o poeta do carpe diem. Paralelamente, tive sempre estudos musicais, também fiz uma licenciatura em viola de arco e neste momento os meus interesses estendem-se por todas estas áreas. Entrei para a Católica, há vinte anos, na qualidade de professor de Latim.
“Há no fenómeno religioso uma gramática e uma vontade poética comuns e extremamente ricas”
Qual é a importância do estudo das línguas clássicas na Teologia?
O património de que a teologia fala, em grande medida, só é acessível por um conhecimento mais profundo, não só dos estudos bíblicos, mas também das línguas da Bíblia e da cultura cristã ocidental, fundamentalmente, o latim, o hebraico e o grego. Estudar teologia sem esta noção das línguas clássicas seria o mesmo que fazer um curso de literatura alemã sem saber alemão.
Ensina também História das Religiões na Faculdade de Teologia.
Esta é uma cadeira que eu tenho particular gosto em dar. Falo na religião antiga grega e romana, mas também sobre o budismo, o hinduísmo, o islão, o judaísmo. Ao ensinarmos e ao falarmos destas culturas e destas religiões, acabamos por dar aos alunos uma sensação de partilha de um mundo muito rico e muito diverso. Isto também enriquece a fé cristã, na medida em que a fé amadurece pelo diálogo. Penso que é evidente que há no fenómeno religioso uma gramática e uma vontade poética comuns e extremamente ricas, pelo menos na minha mundividência.
O que é que distingue o ensino da Teologia?
A Teologia é uma área de saber permanentemente em diálogo com a Língua, com a Filosofia, com a Sociologia, com a Antropologia, com a Igreja. É um curso que se distingue muito de todos os outros, pelo próprio objeto de estudo, e que, na sua dinâmica, oferece aos alunos a possibilidade de compreenderem o mundo de uma forma estruturada, do ponto de vista científico, mas, também, ousada, a partir de uma coisa tão inefável como é Deus.
“[Traduzir] é uma hipótese única de conhecer outra alma com dois mil anos, de ler devagar estes poetas e trabalhar o seu pensamento”
Que temas tem mais recentemente investigado?
A minha questão de fundo é esta gramática ritual comum com que podemos interpretar a realidade muito recuada da convivência da religião antiga, grega e romana, com o cristianismo emergente. Estamos a falar dos primeiros dois, três, quatro séculos. Tenho esta intuição - e há muita coisa produzida sobre isto - de que nós ao estudarmos o cristianismo à luz daquilo que se costuma chamar paganismo, podemos perceber melhor o cristianismo, e vice-versa. Também conseguimos perceber melhor a identidade antiga que vai dar origem à civilização europeia. Este é um dos principais temas que orientam o meu trabalho, mas as investigações tendem a ser mais concretas. Por exemplo, o meu próximo artigo será sobre a perseguição religiosa que foi feita pelos romanos, muito antes do cristianismo, aos festivais de Baco, que estavam a ser introduzidos em Roma.
Também trabalha na tradução de textos a partir das línguas clássicas. O que significa esse trabalho, para si?
O Aníbal Fernandes, que é um dos grandes tradutores que nós temos, costuma dizer “traduzo para ler mais devagar”. E, para mim, é precisamente isto, particularmente com a poesia antiga, que é aquilo que eu mais gosto de traduzir. É uma hipótese única de conhecer outra alma com dois mil anos, de ler devagar estes poetas e trabalhar o seu pensamento – é arrepiante, não é? É uma graça infinita. Ao mesmo tempo, como escritor, trabalho a minha própria técnica de escrita. E depois, claro, o mundo bíblico. Seja-se crente ou não, os evangelhos, por exemplo, lê-los em grego e traduzi-los do grego é das coisas mais bonitas que podem acontecer na vida, porque todas aquelas palavras têm ecos lá dentro. A forma como os evangelhos estão organizados, como foram estruturados, do ponto de vista literário, é uma coisa fascinante.
Tem também trabalhado num projeto de tradução da Bíblia, para a Conferência Episcopal Portuguesa.
Este projeto faz parte de um grande plano que a Igreja tinha desde o Concílio do Vaticano II de ter uma tradução completa da bíblia, cientificamente sólida, para uso litúrgico. E daí partiu-se para um projeto fundamentalmente financiado pela Igreja Portuguesa, para o qual fui convidado pelo, então, Padre Tolentino Mendonça, com quem mantive uma relação próxima na Faculdade.
O nosso trabalho é muito minucioso. Agora está quase acabar, mas dediquei-lhe longas horas por semana nos últimos 10 anos. Recebíamos as traduções de todo o mundo lusófono e depois fazíamos uma revisão científica, literária e litúrgica, muito complexa, que implicou, naturalmente, ir sempre ao original e procurar uma necessária uniformização. O projeto é, por natureza, participativo: todos os meses colocamos textos novos no site e estamos à procura de ecos da comunidade dos leitores, que depois avaliamos. E essa idiossincrasia de participação, no meu conhecimento, é única em projetos como este.
O que o fascina neste diálogo entre aquilo que foi a Antiguidade e aquilo que é a Criação Contemporânea?
Tudo o que nós somos enquanto cultura - e mesmo contracultura -, está sempre em diálogo com o nosso passado. A cultura dita ocidental está sedimentada na maneira greco-romana de ver o mundo. Eu costumo dizer que os classicistas são por natureza otimistas. Conhecer de onde viemos tem essa dupla vantagem: de perceber porque fazemos coisas belas - como a noção de direito, que é uma coisa romana e uma condição imprescindível para a vida em sociedade; e também porque fazemos coisas más e como nos libertamos delas. A escravatura, por exemplo, era uma realidade perfeitamente aceitável para gregos e romanos e é hoje reconhecida como algo abjeto, pavoroso. O cristianismo foi uma revolução no sentido em que introduziu algo que faltava na antiguidade, que é a noção da dignidade humana, da pessoa, do outro, da alteridade - uma conquista lenta, sinuosa da Igreja, mas uma mensagem central no cristianismo.
“A música é o grande fio condutor de tudo isto, é a argamassa que liga todas as minhas experiências.”
E de que forma é que esse conhecimento contagia a sua própria criação, enquanto escritor?
Se o autor opta por uma via sincera, então aquilo que estudou, leu e o inspirou acaba por soar naquilo que faz e integra a sua atitude na escrita. Acho que isso é o que alimenta aquilo que eu faço. Eu costumo apresentar-me como um autor desconhecido do final do século XX. Sou um bocadinho um pós-moderno, não sou um escritor particularmente clássico, nem que procure muito o gesto da forma, mas não deixo de ter uma grande âncora na palavra, enquanto ato etimológico.
E a música?
A música é o grande fio condutor de tudo isto, é a argamassa que liga todas as minhas experiências. Até a experiência mais inefável, uma experiência do divino, é incomensuravelmente, para mim, mais imediata pela música, seja como ouvinte, seja como executante. Tenho gostos muito variados: agora estou a ouvir Bach, e depois já me apetece ouvir Joy Division, Pixies, música renascentista, ou música folclórica da Geórgia. Se eu quero estar num determinado estado de espírito, para escrever, eu sei que música quero ouvir, e é a partir daí que tudo nasce. Mas se estiver a trabalhar ou a escrever um artigo sobre a vírgula no século XV d.C. não consigo com música. Como instrumentista, entrei recentemente no Grupo Arte Minima na dupla capacidade de músico, mas também de especialista em textos litúrgicos antigos escritos em latim. Tenho agora o prazer de estar a explorar a música renascentista - a sua notação, ambiência e estética - e a viola da braccio, e de ver cruzar os meus vários interesses neste universo.
Alguma recomendação cultural?
Ouvir, mas ouvir mesmo, a Paixão segundo São João, de Bach, do princípio ao fim, com o libreto à frente e com a tradução. É uma experiência por que acho que toda a gente devia passar na vida.