Vivemos numa sociedade desligada das suas pessoas mais velhas?
Acho que sim. Vivemos numa sociedade em que a utilidade funciona muito como barómetro e, muitas vezes, considera-se rapidamente que as pessoas mais velhas são pouco úteis. Quando reduzimos a utilidade apenas à dimensão produtiva, os mais velhos acabam por ficar de fora das nossas prioridades. Por outro lado, preocupa-me também a ideia de que os mais velhos só são valorizados enquanto consumidores. Hoje existe todo um mercado dirigido às pessoas mais velhas, com suplementos, residências e serviços, que parte do princípio de que as pessoas mais velhas precisam necessariamente de tudo isso. E talvez não precisem. Talvez precisem de muito menos para viverem bem e realizarem-se enquanto pessoas.
Tem muito contacto com as gerações mais novas. Como é que sente que elas olham hoje para a questão do envelhecimento?
Eu acho que cada vez com mais interesse. Os alunos de Psicologia, que são aqueles que conheço melhor, saem hoje da Faculdade com a ideia de que uma pessoa mais velha não é apenas um problema, do ponto de vista social, económico ou da saúde, mas alguém com potencialidades. É alguém com potencial de desenvolvimento psicológico, social e cognitivo, que pode ser explorado. Isso não quer dizer que a idade não conte, mas não limita necessariamente. Acho que os jovens começam a compreender isso. Costumo dizer nas aulas: “há dois tipos de velhos - os vossos avós, por quem têm carinho e estima; e depois ‘os outros’”. E o que é preciso mudar é precisamente esse olhar. Os “outros” também merecem a mesma atenção, respeito e profissionalismo que os nossos familiares. Felizmente, este interesse crescente nota-se também nas escolhas dos alunos. Todos os anos há estudantes que saem daqui com a intenção de trabalhar com pessoas mais velhas, em lares, hospitais, cuidados continuados ou paliativos, mas também contextos comunitários. A Faculdade tem contribuído para isso, para que se encare os mais velhos como um grupo populacional como qualquer outro, e para o afirmar como uma área relevante para a Psicologia.
Quando pensa na sua infância, qual é a primeira ideia que lhe surge?
Liberdade! Tive uma infância muito livre. Nasci e cresci em Ul, no concelho de Oliveira de Azeméis. Os meus avós eram agricultores e o meu avô materno, com quem cresci muito próximo, era também moleiro, por isso, lá ia eu com ele para os campos e para os moinhos.
Na sua juventude, o que é que queria ser quando fosse grande?
Em criança, pensava em ser cozinheiro ou maestro de orquestra. A minha mãe cozinha muitíssimo bem (Freud explicaria facilmente esse interesse) e, desde muito cedo, tive, também, muito interesse pela música, embora nunca tenha conseguido tocar nenhum instrumento como queria. Aprendi piano, mas sem grande sucesso. Até aos 11 ou 12 anos, eram essas as áreas de que me sentia mais próximo. Depois vivi sempre um pouco dividido entre uma atividade mais de gabinete e uma vida profissional mais ao ar livre. Acho que também não me teria dado mal como agricultor ou arquiteto-paisagista.
E como surge a Psicologia?
A Psicologia surgiu no ensino secundário. Na altura, muitos alunos pensavam em Medicina e eu também pensei nisso, sobretudo em Psiquiatria, mas a Psicologia começou a interessar-me quando tive a disciplina no secundário. Estamos a falar do início dos anos 80, quando em Portugal praticamente ninguém sabia bem o que era um psicólogo. Não conhecia ninguém da área, mas comecei a interessar-me muito pelo tema. Havia alguns livros de Psicologia editados pela Fundação Gulbenkian e lembro-me de escrever uma carta para a Fundação a pedir esses livros para aprofundar o estudo. Não havia internet e não era fácil aceder a esse tipo de materiais vivendo na província. O mais curioso é que a Gulbenkian me enviou os livros gratuitamente. Na altura não imaginava que, décadas mais tarde, iria acabar por trabalhar lá…
“O mais desafiante é tentar compreender uma realidade que ainda não vivemos”
Acaba por se especializar na área do envelhecimento. Porquê?
O estudo do envelhecimento, do ponto de vista psicológico, começa em Portugal muito com a minha geração. Uma das primeiras pessoas a interessar-se verdadeiramente por esta área foi a Professora Constança Paúl, que depois veio a ser minha orientadora de doutoramento. Por volta do ano 2000, formou-se um grupo de pessoas que começou a desenvolver este campo em Portugal. O que me interessou foi precisamente o facto de ser uma área praticamente por explorar.
Muitas vezes, esquecemo-nos de que o processo de desenvolvimento continua ao longo de toda a vida …
É isso mesmo. No meu tempo de Faculdade, o conceito de desenvolvimento terminava praticamente no fim da adolescência. Não se falava do desenvolvimento do adulto ou da pessoa mais velha.
Qual é o grande desafio de estudar a área do envelhecimento?
Na área em que trabalho, o mais desafiante é tentar compreender uma realidade que ainda não vivemos. Eu caminho para ser velho, mas ainda não sou velho. E, portanto, estamos a tentar compreender modos de funcionamento cognitivo, relacional ou até ligados à sexualidade que nunca experimentámos diretamente.
Além disso, à medida que envelhecemos, tornamo-nos cada vez mais diferentes uns dos outros. A variabilidade individual aumenta muito com a idade. Costumo dizer que nunca conhecemos “a velhice”; conhecemos sempre uma pessoa velha de cada vez. Ou seja, não há propriamente um padrão. E quando ele existe, muitas vezes é por causa da doença, nomeadamente da demência. As pessoas com demência acabam por apresentar características mais semelhantes entre si do que as pessoas que envelhecem sem doença neurocognitiva.
“É uma ambivalência constante entre querer viver mais tempo e, ao mesmo tempo, rejeitar muito do que isso implica”
O que significa envelhecer bem?
Para mim, envelhecer bem tem sobretudo a ver com manter o controlo da própria vida. Claro que a saúde, o dinheiro ou a família são importantes, mas isso, por si só, não chega. Há pessoas com muitos recursos económicos que sofrem bastante do ponto de vista psicológico, e há pessoas saudáveis que têm enorme dificuldade em lidar com aspetos do dia a dia. Envelhecer bem significa conseguir manter controlo sobre a vida (nas dimensões social, cognitiva, relacional) e sobre aquilo que pode ameaçar esse equilíbrio ao longo do tempo.
Temos medo de envelhecer?
Todos queremos chegar a velhos, mas ao mesmo tempo temos medo de o ser, sobretudo pelas consequências associadas ao envelhecimento. Esse paradoxo sempre existiu e continua a existir. É uma ambivalência constante entre querer viver mais tempo e, ao mesmo tempo, rejeitar muito do que isso implica. Mas isso não acontece só com o envelhecimento. Também acontece noutras fases da vida. Há pessoas que desejam muito ser pais e depois, quando o são, interrogam-se como é que foi possível alguma vez o desejaram. No envelhecimento, no entanto, há uma inevitabilidade: ou envelhecemos, ou não chegamos lá.
Quando é que surge a sua ligação à Universidade Católica?
Entro na Universidade Católica em 2003, quando o Professor Joaquim Azevedo decide trazer para o Porto o Instituto de Educação, que já existia em Lisboa. Era um Instituto focado sobretudo em mestrados e pós-graduações na área da Educação. Nessa altura, começou-se também a discutir a criação de uma licenciatura em Psicologia, porque a Católica ainda não tinha essa formação. Achámos que havia condições para avançar no Porto e acabámos por criar aquela que foi a primeira licenciatura em Psicologia da Universidade Católica. Acabei por estar muito ligado a essa construção inicial. Foi preciso criar praticamente tudo do zero. Durante uma década, assumi diferentes funções, como diretor, coordenador de licenciatura e mestrados, diretor do Centro de Investigação... A Faculdade de Educação e Psicologia que existe hoje resulta muito desse trabalho inicial desenvolvido pelo Professor Joaquim Azevedo, por mim e por um grupo de pessoas que está ligado à história da Faculdade desde o seu princípio.
É consultor da Fundação Calouste Gulbenkian. Em que consiste esse trabalho e que contacto tem com as instituições no terreno?
Sou consultor da Fundação Calouste Gulbenkian desde 2016, na área do envelhecimento. O meu trabalho é acompanhar as iniciativas da Fundação nessa área e manter contacto com as instituições envolvidas. Isso dá-me acesso a centenas de organizações em todo o país. Na prática, permite-me ter uma visão muito ampla do terreno, quase como uma espécie de psicologia ecológica aplicada às questões do envelhecimento e das estruturas de apoio às pessoas mais velhas. Este trabalho é paralelo à atividade na Faculdade, mas acaba por ser muito complementar. Aquilo que vou aprendendo no terreno transporto depois para as aulas, para a investigação e para a formação dos alunos. E também tem permitido criar oportunidades de estágio para estudantes em instituições com as quais trabalho através da Fundação.
“Temos de educar o nosso olhar para não cair em verdades absolutas antes de explorar. Antes de conhecer, antes de interpretar”
Qual é a principal mensagem que gosta de deixar aos seus alunos?
A principal mensagem é que um psicólogo não se forma apenas com conhecimentos técnicos, mas também através do olhar. É o mais importante. Um psicólogo tem de ter um olhar sobre os fenómenos humanos muito particular, que não se confunde com o do médico, do assistente social ou do advogado. É um olhar de compreensão, mas também de compreensão crítica. Na Psicologia, o normal e o patológico não existem à partida. O certo e o errado também não. Temos de educar o nosso olhar para não cair em verdades absolutas antes de explorar. Antes de conhecer, antes de interpretar. A experiência humana, quando é bem explorada, permite ir para além do sintoma e daquilo que está à superfície, e perceber causas, razões e motivações mais profundas. É a aprendizagem desse olhar que gosto de trabalhar com os alunos.
Como é que se treina o olhar?
Treina-se precisamente explorando o que está por baixo da superfície.
Que livros da literatura portuguesa recomenda que abordem o tema do Envelhecimento?
A Máquina de Fazer Espanhóis, de Valter Hugo Mãe, e Misericórdia, de Lídia Jorge. São dois livros muito interessantes sobre o envelhecimento, sobretudo em contexto institucional. Depois, há também Vergílio Ferreira, com uma obra muito relevante e com vários livros muito ricos na forma como abordam a experiência do envelhecer.
O que é que gosta de fazer nos seus tempos livres?
Volto um pouco à minha infância. Gosto da liberdade, do ar livre, da natureza, do campo. Gosto de passear, não necessariamente muito longe, mas estar na natureza, fazer caminhadas. Já fiz o Caminho de Santiago algumas vezes, através de percursos diferentes. Gosto muito de jardinagem, e de explorar, dessa forma, a minha vertente de arquiteto-paisagista que nunca fui. Gosto de plantar, de cuidar, assumir um papel de agricultor que também nunca exerci profissionalmente. No fundo, no tempo livre, acabo por viver essas dimensões que ficaram sempre como possibilidades.