X

Novidades

António Fonseca: “Vivemos numa sociedade em que a utilidade funciona como barómetro.”

António Fonseca é docente e investigador da Faculdade de Educação e Psicologia da Universidade Católica Portuguesa no Porto. Especializou-se na área da Psicologia do Envelhecimento e é consultor da Fundação Calouste Gulbenkian desde 2016. Na Católica, teve um papel determinante na criação da licenciatura em Psicologia. Aos seus alunos, procura transmitir que “um psicólogo não se forma apenas com conhecimentos técnicos, mas também através do olhar”.

 

Vivemos numa sociedade desligada das suas pessoas mais velhas?

Acho que sim. Vivemos numa sociedade em que a utilidade funciona muito como barómetro e, muitas vezes, considera-se rapidamente que as pessoas mais velhas são pouco úteis. Quando reduzimos a utilidade apenas à dimensão produtiva, os mais velhos acabam por ficar de fora das nossas prioridades. Por outro lado, preocupa-me também a ideia de que os mais velhos só são valorizados enquanto consumidores. Hoje existe todo um mercado dirigido às pessoas mais velhas, com suplementos, residências e serviços, que parte do princípio de que as pessoas mais velhas precisam necessariamente de tudo isso. E talvez não precisem. Talvez precisem de muito menos para viverem bem e realizarem-se enquanto pessoas.

 

Tem muito contacto com as gerações mais novas. Como é que sente que elas olham hoje para a questão do envelhecimento?

Eu acho que cada vez com mais interesse. Os alunos de Psicologia, que são aqueles que conheço melhor, saem hoje da Faculdade com a ideia de que uma pessoa mais velha não é apenas um problema, do ponto de vista social, económico ou da saúde, mas alguém com potencialidades. É alguém com potencial de desenvolvimento psicológico, social e cognitivo, que pode ser explorado. Isso não quer dizer que a idade não conte, mas não limita necessariamente. Acho que os jovens começam a compreender isso. Costumo dizer nas aulas: “há dois tipos de velhos - os vossos avós, por quem têm carinho e estima; e depois ‘os outros’”. E o que é preciso mudar é precisamente esse olhar. Os “outros” também merecem a mesma atenção, respeito e profissionalismo que os nossos familiares. Felizmente, este interesse crescente nota-se também nas escolhas dos alunos. Todos os anos há estudantes que saem daqui com a intenção de trabalhar com pessoas mais velhas, em lares, hospitais, cuidados continuados ou paliativos, mas também contextos comunitários. A Faculdade tem contribuído para isso, para que se encare os mais velhos como um grupo populacional como qualquer outro, e para o afirmar como uma área relevante para a Psicologia.

 

Quando pensa na sua infância, qual é a primeira ideia que lhe surge?

Liberdade! Tive uma infância muito livre. Nasci e cresci em Ul, no concelho de Oliveira de Azeméis. Os meus avós eram agricultores e o meu avô materno, com quem cresci muito próximo, era também moleiro, por isso, lá ia eu com ele para os campos e para os moinhos.

 

Na sua juventude, o que é que queria ser quando fosse grande?

Em criança, pensava em ser cozinheiro ou maestro de orquestra. A minha mãe cozinha muitíssimo bem (Freud explicaria facilmente esse interesse) e, desde muito cedo, tive, também, muito interesse pela música, embora nunca tenha conseguido tocar nenhum instrumento como queria. Aprendi piano, mas sem grande sucesso. Até aos 11 ou 12 anos, eram essas as áreas de que me sentia mais próximo. Depois vivi sempre um pouco dividido entre uma atividade mais de gabinete e uma vida profissional mais ao ar livre. Acho que também não me teria dado mal como agricultor ou arquiteto-paisagista.

 

E como surge a Psicologia?

A Psicologia surgiu no ensino secundário. Na altura, muitos alunos pensavam em Medicina e eu também pensei nisso, sobretudo em Psiquiatria, mas a Psicologia começou a interessar-me quando tive a disciplina no secundário. Estamos a falar do início dos anos 80, quando em Portugal praticamente ninguém sabia bem o que era um psicólogo. Não conhecia ninguém da área, mas comecei a interessar-me muito pelo tema. Havia alguns livros de Psicologia editados pela Fundação Gulbenkian e lembro-me de escrever uma carta para a Fundação a pedir esses livros para aprofundar o estudo. Não havia internet e não era fácil aceder a esse tipo de materiais vivendo na província. O mais curioso é que a Gulbenkian me enviou os livros gratuitamente. Na altura não imaginava que, décadas mais tarde, iria acabar por trabalhar lá…

 

“O mais desafiante é tentar compreender uma realidade que ainda não vivemos”

 

Acaba por se especializar na área do envelhecimento. Porquê? 

O estudo do envelhecimento, do ponto de vista psicológico, começa em Portugal muito com a minha geração. Uma das primeiras pessoas a interessar-se verdadeiramente por esta área foi a Professora Constança Paúl, que depois veio a ser minha orientadora de doutoramento. Por volta do ano 2000, formou-se um grupo de pessoas que começou a desenvolver este campo em Portugal. O que me interessou foi precisamente o facto de ser uma área praticamente por explorar.

 

Muitas vezes, esquecemo-nos de que o processo de desenvolvimento continua ao longo de toda a vida …

É isso mesmo. No meu tempo de Faculdade, o conceito de desenvolvimento terminava praticamente no fim da adolescência. Não se falava do desenvolvimento do adulto ou da pessoa mais velha. 

 

Qual é o grande desafio de estudar a área do envelhecimento?

Na área em que trabalho, o mais desafiante é tentar compreender uma realidade que ainda não vivemos. Eu caminho para ser velho, mas ainda não sou velho. E, portanto, estamos a tentar compreender modos de funcionamento cognitivo, relacional ou até ligados à sexualidade que nunca experimentámos diretamente. 
Além disso, à medida que envelhecemos, tornamo-nos cada vez mais diferentes uns dos outros. A variabilidade individual aumenta muito com a idade. Costumo dizer que nunca conhecemos “a velhice”; conhecemos sempre uma pessoa velha de cada vez. Ou seja, não há propriamente um padrão. E quando ele existe, muitas vezes é por causa da doença, nomeadamente da demência. As pessoas com demência acabam por apresentar características mais semelhantes entre si do que as pessoas que envelhecem sem doença neurocognitiva.

 

“É uma ambivalência constante entre querer viver mais tempo e, ao mesmo tempo, rejeitar muito do que isso implica”

 

O que significa envelhecer bem?

Para mim, envelhecer bem tem sobretudo a ver com manter o controlo da própria vida. Claro que a saúde, o dinheiro ou a família são importantes, mas isso, por si só, não chega. Há pessoas com muitos recursos económicos que sofrem bastante do ponto de vista psicológico, e há pessoas saudáveis que têm enorme dificuldade em lidar com aspetos do dia a dia. Envelhecer bem significa conseguir manter controlo sobre a vida (nas dimensões social, cognitiva, relacional) e sobre aquilo que pode ameaçar esse equilíbrio ao longo do tempo.

 

Temos medo de envelhecer?

Todos queremos chegar a velhos, mas ao mesmo tempo temos medo de o ser, sobretudo pelas consequências associadas ao envelhecimento. Esse paradoxo sempre existiu e continua a existir. É uma ambivalência constante entre querer viver mais tempo e, ao mesmo tempo, rejeitar muito do que isso implica. Mas isso não acontece só com o envelhecimento. Também acontece noutras fases da vida. Há pessoas que desejam muito ser pais e depois, quando o são, interrogam-se como é que foi possível alguma vez o desejaram. No envelhecimento, no entanto, há uma inevitabilidade: ou envelhecemos, ou não chegamos lá.

 

Quando é que surge a sua ligação à Universidade Católica?

Entro na Universidade Católica em 2003, quando o Professor Joaquim Azevedo decide trazer para o Porto o Instituto de Educação, que já existia em Lisboa. Era um Instituto focado sobretudo em mestrados e pós-graduações na área da Educação. Nessa altura, começou-se também a discutir a criação de uma licenciatura em Psicologia, porque a Católica ainda não tinha essa formação. Achámos que havia condições para avançar no Porto e acabámos por criar aquela que foi a primeira licenciatura em Psicologia da Universidade Católica. Acabei por estar muito ligado a essa construção inicial. Foi preciso criar praticamente tudo do zero. Durante uma década, assumi diferentes funções, como diretor, coordenador de licenciatura e mestrados, diretor do Centro de Investigação... A Faculdade de Educação e Psicologia que existe hoje resulta muito desse trabalho inicial desenvolvido pelo Professor Joaquim Azevedo, por mim e por um grupo de pessoas que está ligado à história da Faculdade desde o seu princípio.

 

É consultor da Fundação Calouste Gulbenkian. Em que consiste esse trabalho e que contacto tem com as instituições no terreno?

Sou consultor da Fundação Calouste Gulbenkian desde 2016, na área do envelhecimento. O meu trabalho é acompanhar as iniciativas da Fundação nessa área e manter contacto com as instituições envolvidas. Isso dá-me acesso a centenas de organizações em todo o país. Na prática, permite-me ter uma visão muito ampla do terreno, quase como uma espécie de psicologia ecológica aplicada às questões do envelhecimento e das estruturas de apoio às pessoas mais velhas. Este trabalho é paralelo à atividade na Faculdade, mas acaba por ser muito complementar. Aquilo que vou aprendendo no terreno transporto depois para as aulas, para a investigação e para a formação dos alunos. E também tem permitido criar oportunidades de estágio para estudantes em instituições com as quais trabalho através da Fundação.

 

“Temos de educar o nosso olhar para não cair em verdades absolutas antes de explorar. Antes de conhecer, antes de interpretar”

 

Qual é a principal mensagem que gosta de deixar aos seus alunos?

A principal mensagem é que um psicólogo não se forma apenas com conhecimentos técnicos, mas também através do olhar. É o mais importante. Um psicólogo tem de ter um olhar sobre os fenómenos humanos muito particular, que não se confunde com o do médico, do assistente social ou do advogado. É um olhar de compreensão, mas também de compreensão crítica. Na Psicologia, o normal e o patológico não existem à partida. O certo e o errado também não. Temos de educar o nosso olhar para não cair em verdades absolutas antes de explorar. Antes de conhecer, antes de interpretar. A experiência humana, quando é bem explorada, permite ir para além do sintoma e daquilo que está à superfície, e perceber causas, razões e motivações mais profundas. É a aprendizagem desse olhar que gosto de trabalhar com os alunos.

 

Como é que se treina o olhar?

Treina-se precisamente explorando o que está por baixo da superfície.

 

Que livros da literatura portuguesa recomenda que abordem o tema do Envelhecimento?

A Máquina de Fazer Espanhóis, de Valter Hugo Mãe, e Misericórdia, de Lídia Jorge. São dois livros muito interessantes sobre o envelhecimento, sobretudo em contexto institucional. Depois, há também Vergílio Ferreira, com uma obra muito relevante e com vários livros muito ricos na forma como abordam a experiência do envelhecer.

 

O que é que gosta de fazer nos seus tempos livres?

Volto um pouco à minha infância. Gosto da liberdade, do ar livre, da natureza, do campo. Gosto de passear, não necessariamente muito longe, mas estar na natureza, fazer caminhadas. Já fiz o Caminho de Santiago algumas vezes, através de percursos diferentes. Gosto muito de jardinagem, e de explorar, dessa forma, a minha vertente de arquiteto-paisagista que nunca fui. Gosto de plantar, de cuidar, assumir um papel de agricultor que também nunca exerci profissionalmente. No fundo, no tempo livre, acabo por viver essas dimensões que ficaram sempre como possibilidades.

 

28-05-2026

Universidade Católica Portuguesa reforça ligação ao setor empresarial na Cimeira da Indústria, em Braga

A Universidade Católica Portuguesa associou-se à Cimeira da Indústria, uma iniciativa da AEMinho e do Observador, que reuniu líderes empresariais, decisores públicos e académicos para debater os desafios da indústria e do crescimento económico em Portugal.

Realizada no dia 26 de maio, no Theatro Circo, em Braga, esta iniciativa promoveu um debate alargado sobre competitividade, escala, produtividade, custos de contexto, inovação e liderança empresarial, tendo contado com o apoio de várias empresas e organizações, incluindo a Universidade Católica Portuguesa (UCP), através do Centro Regional de Braga, da Católica Porto Business School e da Católica Lisbon School of Business and Economics.

Na conferência participaram vários responsáveis políticos, líderes empresariais e especialistas de diferentes áreas, entre os quais Luís Montenegro, Primeiro-Ministro, Gonçalo Matias, ministro adjunto e da Reforma do Estado, Rui Moreira, embaixador de Portugal na OCDE e Carlos Moreira da Silva, presidente da Business Roundtable Portugal.

João Pinto, diretor da Católica Porto Business School, participou no painel “Ultrapassar os Obstáculos”, dedicado às estratégias que empresários e gestores podem desenvolver para enfrentar contextos mais adversos. O debate contou também com a presença de Joana Carvalho, CEO da SFgo, e José Teixeira, presidente do DST Group, após uma intervenção de Gonçalo Regalado, CEO do Banco Português de Fomento.

À margem da Cimeira, João Pinto participou ainda no programa de rádio Contra Corrente, do Observador, gravado em direto no local, contribuindo para a reflexão pública sobre os desafios da indústria, da competitividade e do crescimento económico em Portugal. 

28-05-2026

Faculdade de Educação e Psicologia e Associação de Futebol de Viana do Castelo estabelecem parceria na área do Desporto e da Psicologia

A Faculdade de Educação e Psicologia da Universidade Católica Portuguesa (FEP‑UCP), a Escola de Psicologia da Universidade do Minho (EPsi-U.M.) e a Associação de Futebol de Viana do Castelo (AFVC) formalizaram um protocolo de cooperação com a duração de cinco anos, que visa reforçar a articulação entre a investigação académica e o contexto do desporto de formação e de alto rendimento.

O acordo foi assinado sob a coordenação de Catarina Morais, coordenadora da Licenciatura em Psicologia e da Pós-graduação em Psicologia do Desporto e da Performance da FEP‑UCP, e estabelece uma colaboração na área da Psicologia, com incidência no acompanhamento de jovens atletas, estruturas organizativas (treinadores, dirigentes) e equipas de arbitragem da AFVC.

 

Investigação em contexto real

No âmbito deste protocolo, a FEP‑UCP, juntamente com a EPsi-U.M., terá acesso à recolha de dados junto dos jovens atletas, das estruturas e dos árbitros da Associação de Futebol de Viana do Castelo, dados que serão utilizados para o desenvolvimento de estudos científicos. Em conjunto, as duas entidades assumirão igualmente a supervisão do projeto do ponto de vista da avaliação e intervenção psicológica, assegurando o acompanhamento científico e pedagógico das atividades desenvolvidas.

 

Integração de psicólogos juniores

O protocolo prevê ainda que, em cada ano da parceria, a Associação de Futebol de Viana do Castelo acolha um psicólogo júnior no âmbito desta parceria. Esta integração permitirá a aplicação prática de conhecimentos em contexto desportivo, contribuindo simultaneamente para a formação dos estudantes e para o acompanhamento psicológico dos agentes desportivos envolvidos.

Com este protocolo, a FEP‑UCP reforça a sua ligação à comunidade e o desenvolvimento de projetos que articulam investigação, formação e intervenção em contextos reais.

28-05-2026

1.º Congresso Internacional da Sociedade Portuguesa de Enfermagem de Saúde Escolar reúne especialistas no Porto

A Faculdade de Ciências da Saúde e Enfermagem da Universidade Católica Portuguesa acolheu, dia 22 de maio, o 1.º Congresso Internacional da Sociedade Portuguesa de Enfermagem de Saúde Escolar, uma iniciativa que reuniu profissionais, investigadores e estudantes em torno dos desafios atuais da promoção da saúde em contexto escolar.

Subordinado ao tema “Promoção da Saúde e Equidade em Contextos Educativos: desafios globais e respostas locais”, o congresso decorreu no Auditório Carvalho Guerra, no Campus do Porto, assinalando também os 40 anos da Carta de Ottawa para a Promoção da Saúde. Ao longo do dia, o evento promoveu a reflexão sobre o papel da Enfermagem de Saúde Escolar na construção de comunidades educativas mais saudáveis, inclusivas e sustentáveis.

O programa científico contou com momentos de debate, partilha de experiências e apresentação de boas práticas, reforçando a importância da intervenção dos profissionais de saúde escolar na promoção da literacia em saúde, da prevenção da doença e da equidade no acesso aos cuidados. O congresso destacou ainda a necessidade de respostas locais articuladas perante os desafios sociais, tecnológicos e educativos que marcam atualmente os contextos escolares.

Dirigido sobretudo a profissionais da área da Saúde Escolar, com especial enfoque nos enfermeiros, o encontro constituiu um espaço de diálogo interdisciplinar e atualização científica, contribuindo para o fortalecimento das redes de colaboração e para a valorização da Enfermagem de Saúde Escolar em Portugal e a nível internacional.

27-05-2026

Pedro Duarte e Joel Cleto refletem sobre a identidade do Porto na Universidade Católica

“O que faz de uma cidade aquilo que ela é?” É a pedra das suas ruas, a traça dos seus edifícios, os rostos que a habitam ou algo mais difícil de definir, construído ao longo de séculos? Foi em torno desta questão que se reuniram, num debate do ciclo Conversas sobre Ciências & Sociedade, o presidente da Câmara Municipal do Porto, Pedro Duarte, e o historiador Joel Cleto. Moderado por Paula Castro, diretora da Escola Superior de Biotecnologia da Universidade Católica Portuguesa, o debate procurou refletir sobre a identidade da cidade do Porto: o que ela é, de onde vem, o que a ameaça, para onde caminha.

A escolha do Porto como mote da conversa permitiu abordar a tensão da cidade entre o enraizamento e a transformação, entre o orgulho das origens e a pressão de um presente que muda a ritmos sem precedente. Como sublinhou Joel Cleto, "a identidade é algo de notável e tem muito a ver com as dinâmicas da sociedade"; não é um monumento fixo, é um organismo vivo.

Uma herança de 2500 anos

Para compreender o Porto de hoje, é necessário recuar na sua história. "Nas origens do Porto está lá tudo", afirmou Joel Cleto, com a convicção de quem dedicou décadas a estudar a cidade. "É uma cidade que só podia nascer onde nasceu, ali no morro da Pena Ventosa e na Sé. São 2500 anos de ocupação contínua da cidade", acrescentou, assinalando a relevância desse dado geográfico e histórico na génese da cidade, escolhida pela sua posição, pelo rio, pelo mar próximo, pela colina que domina a envolvente.

O historiador salientou ainda que a identidade resulta de um processo de continuidade entre gerações: "A identidade é algo que recebemos de gerações anteriores e que queremos passar às gerações seguintes. Recebemos, valorizamos e queremos projetar para o futuro".

A singularidade da identidade portuense

Pedro Duarte trouxe ao debate a perspetiva de quem governa a cidade, mas também de quem a vive enquanto habitante. "O Porto talvez seja uma exceção em termos de identidade", disse, reconhecendo que a palavra se tornou quase incómoda no discurso público. "É saudável falar em identidade, porque quase se tornou um termo maldito. É muitas vezes usada de forma abusiva, para marcar divergências, mas não nos podemos deixar condicionar."

As diferentes dimensões da identidade

Durante a conversa, foram identificadas várias dimensões da identidade da cidade. Pedro Duarte referiu uma dimensão física e patrimonial, associada ao património construído e aos espaços urbanos; uma dimensão simbólica e social, representada por elementos amplamente reconhecidos da cultura portuense, "como o Futebol Clube do Porto ou o facto de sermos conhecidos por trocar o v pelo b"; e uma dimensão imaterial.

"É emocional. Como dizia Agustina Bessa-Luís, ‘O Porto não é um lugar, é um sentimento’. Há um espírito tripeiro, muito próprio, mesmo com as naturais discordâncias que sempre existem na comunidade", partilhou Pedro Duarte.

Joel Cleto corroborou esta dimensão imaterial. "A identidade tem também uma dimensão imaterial e isso define o Porto, com tradições e memórias". Afirmou também que "o património tem muito de identitário e a identidade muito de patrimonial", evidenciando a relação entre a preservação do património e a construção da identidade coletiva.

No que respeita ao papel de instituições e símbolos da cidade, ambos os intervenientes reconheceram a sua relevância para a construção da identidade portuense. Joel Cleto observou que "hoje parte da cidade revê-se identitariamente com o Futebol Clube do Porto", enquanto Pedro Duarte incluiu o clube entre os elementos que contribuem para a dimensão simbólica e social da cidade.

Ainda assim, o historiador sublinhou que a identidade da cidade ultrapassa qualquer referência isolada, na perspetiva dos seus 2500 anos de história: "mais do que a forma, fundamental é a essência".

Transformação urbana e identidade

A evolução demográfica e urbana da cidade foi outro dos temas em destaque. A propósito da gentrificação, Joel Cleto contextualizou o fenómeno numa perspetiva histórica, lembrando que o Porto já viveu anteriores processos de transformação populacional e territorial.

"Tem-se falado muito de gentrificação ultimamente, mas esta gentrificação não é a maior que o Porto conheceu", afirmou. O historiador recordou as transferências populacionais ocorridas nas décadas de 1970 e 1980, quando “milhares de pessoas foram transferidas do centro histórico do Porto, onde viviam em ilhas verticais, insalubres e sem condições de habitabilidade, para os novos bairros de Ramalde ou Aldoar". Recordou ainda movimentos semelhantes registados no século XIX: “um grande número de famílias saiu do centro para geografias mais laterais, como Cedofeita ou Campanhã", acompanhados por novos fluxos migratórios, "provenientes de regiões como Trás-os-Montes, o Minho ou a Galiza".

Pedro Duarte reconheceu, por sua vez, que as transformações recentes colocam desafios importantes à preservação da identidade da cidade. "A demografia do Porto tem vindo a alterar-se, a economia mudou drasticamente, principalmente com a ascensão do turismo. Estes abalos trazem riscos à preservação desta identidade de que estamos a falar", referiu.

O presidente da Câmara reconheceu que a dinâmica económica recente "tem sido muito positiva para a cidade", mas refletiu que "há sempre um momento em que essa dinâmica pode deteriorar a identidade própria da cidade. E quando isso acontece, o Porto tal e qual o conhecemos fica em risco".

O papel das políticas públicas

O debate não podia deixar de abordar a responsabilidade das políticas públicas, em matéria de identidade. "A identidade tem uma abordagem cultural que o discurso político e as políticas públicas podem alterar de forma clara", afirmou Pedro Duarte, reconhecendo a importância de ações comprometidas com a preservação da identidade do Porto.

Por seu lado, Joel Cleto alertou para os riscos de uma visão excessivamente rígida da identidade, defendendo que esta se encontra em permanente construção e adaptação. "A identidade está permanentemente a ser moldada e se olharmos para ela de forma muito rígida pode dar mau resultado", observou, apontando para os riscos da cristalização pela nostalgia ou da encenação para consumo turístico – que ambos os oradores concordaram dever evitar-se.

Neste contexto, Pedro Duarte defendeu a importância de encontrar um equilíbrio entre a evolução da cidade e a preservação dos seus elementos fundamentais, privilegiando o bem comum: "É preciso um ponto de equilíbrio entre uma realidade de evolução e o elemento essencial que não podemos descurar".

Uma reflexão sobre o futuro da cidade

A sessão terminou com uma reflexão sobre os desafios que se colocam às cidades contemporâneas, face a transformações cada vez mais rápidas e em maior escala, e sobre a importância da identidade como fator de coesão social e qualidade de vida.

Como referiu Joel Cleto, "a qualidade de vida também passa pela valorização da identidade". Já Pedro Duarte destacou a persistência de um "espírito tripeiro, muito próprio", que continua a marcar a vivência da cidade.

Num diálogo entre história e política, entre passado e futuro, esta sessão do ciclo Conversas sobre Ciências & Sociedade evidenciou a importância de uma leitura abrangente e interdisciplinar das transformações sociais, culturais e urbanas que marcam a atualidade - uma abordagem que está também na base da Licenciatura em Ciências e Sociedade (Liberal Sciences), programa que inspira este ciclo de conversas.

26-05-2026

Escola das Artes integra nova edição do Serralves em Festa

De 29 e 31 de maio, a nova edição do Serralves em Festa volta a reunir centenas de artistas e dezenas de propostas multidisciplinares ao longo de 50 horas consecutivas de programação gratuita. Ao longo de três dias, os diferentes espaços de Serralves recebem uma programação contínua de concertos, performances, instalações, cinema e oficinas.

A Escola das Artes volta a marcar presença nesta programação com um conjunto de projetos apresentados por estudantes da Licenciatura em Som e Imagem, Mestrado Digicrea e do Doutoramento em Ciência e Tecnologia das Artes, distribuídos entre o Museu, a Biblioteca, o Jardim da Casa e a Zona da Cozinha.

Este ano, Bryan Izurieta, Dila Yumurtacı, Jéssica Gaspar, Guy Fleisher, Mia Braga Smith, Dilnaz Gabdolla, Evangelos Aslanidis, Ho-Ting Wei, Paula Molina, Victor Galles e Rita Castanheira apresentam trabalhos que atravessam performance, instalação e práticas colaborativas.

Entre os projetos apresentados encontram-se Allpa Samay, performance de Bryan Izurieta; Multispecies Attunement: Fungi, workshop/laboratório de Dila Yumurtacı, Jéssica Gaspar e Guy Fleisher; e as instalações Double Sided Coins & [Redacted Statements], de Mia Braga Smith, SHYRAQ, de Dilnaz Gabdolla, Home v2.0, de Evangelos Aslanidis, The Voice of Gravity, de Ho-Ting Wei, Liquid Reality, de Paula Molina, The Weight of Statements, de Victor Galles, e partymode101.mp4, de Rita Castanheira.

Mais informações sobre horários e programação em breve. 

25-05-2026

Católica Porto Business School realizou e primeira edição do Marketing Link

Idealizado pelos Professores do Mestrado em Marketing Božidar Vlačić e Carla Martins, o Marketing Link nasceu como uma nova iniciativa da Católica Porto Business School, criada para aproximar estudantes, alumni, docentes e profissionais em torno de uma visão partilhada sobre os desafios e as tendências que moldam o marketing contemporâneo.   

Concebido como um espaço de conhecimento, aprendizagem e networking, o evento proporcionou uma tarde de reflexão e partilha em torno de temas atuais e relevantes para o setor, cruzando perspetivas académicas e experiências do mercado. 

Esta primeira edição contou com a participação de dois oradores convidados, que abordaram diferentes dimensões do marketing através de sessões interativas e orientadas para a aplicação prática. 

Cosme Almeida, diretor de programas internacionais na Católica Porto Business School, conduziu a sessão “Avaliação Financeira de Marcas”, explorando os principais indicadores de valorização financeira e a sua relevância para a construção estratégica das marcas. 

Inês Rocha, Area Manager de Brand Responsibility na Sonae MC, apresentou a sessão “Missão Continente - Para grandes causas, grandes missões", partilhando a sua experiência na articulação entre estratégia de marca, responsabilidade social e impacto positivo na comunidade. 

Enquanto primeira edição, o Marketing Link afirmou-se como um momento relevante de encontro e partilha de conhecimento, reforçando o compromisso da Católica Porto Business School com a promoção de experiências de aprendizagem ligadas aos desafios reais do mercado e à construção de uma comunidade académica cada vez mais conectada. 

Candidaturas abertas para o Mestrado em Marketing: saiba mais

25-05-2026

Ilídio Pinho: “A Católica pode desempenhar um papel excecional na resposta aos desafios culturais e estruturais que Portugal enfrenta.”

Ilídio Pinho, nascido a 19 de dezembro de 1938, é natural de Vale de Cambra. Figura de destaque no mundo empresarial, é fundador e presidente da Fundação Ilídio Pinho, da Ilídio Pinho Holding e da Fomentinvest, entre outras iniciativas. Reconhecido pelo seu contributo para o desenvolvimento económico e social, é igualmente um destacado mecenas da Universidade Católica Portuguesa.

Iniciou o seu percurso em 1964, com a criação da COLEP Portugal – Embalagens, Produtos, Enchimentos e Equipamentos, S.A., empresa que se tornou na maior da sua área a nível europeu. Durante o seu percurso, assumiu cargos de elevado relevo empresarial e participou em empresas de diversos setores como o metalúrgico, o segurador e o bancário entre outros, demonstrando as características de empreendedor dinâmico e inovador.

O contributo de Ilídio Pinho para a economia, o ensino superior, as artes e a valorização humana tem sido amplamente distinguido ao longo do seu percurso, através de inúmeros reconhecimentos. Entre estes destacam-se a Grã-Cruz da Ordem do Mérito, a Grã-Cruz da Ordem do Infante D. Henrique, a Medalha de Mérito Cultural atribuída pelo Estado português, a Medalha de Ouro da Universidade Católica Portuguesa e o título de Doutor Honoris Causa pela mesma instituição, entre outras distinções que sublinham a relevância do seu impacto em diferentes áreas da sociedade.

Nesta entrevista, fala-nos sobre a sua visão acerca do desenvolvimento do país, o papel da ciência e da inovação, a sua relação próxima com a Universidade Católica e os sonhos que tem para Portugal.

 

Quais são as memórias da sua infância?

Nasci antes da Segunda Guerra Mundial, em 1938, numa terra conhecida como a terra dos leiteiros e dos serranos. Em Vale de Cambra, não havia ruas nem caminhos alcatroados, era tudo terra batida. Os automóveis eram carroças e a maioria das pessoas andava descalça, em condições muito duras. A eletricidade era pouca e de muito má qualidade e a assistência à saúde praticamente não existia. Quando comparo esse tempo com o de hoje, penso muitas vezes que somos ingratos quando nos queixamos. Sofria-se muito mais e em condições verdadeiramente desumanas. Essa realidade ensinou-me a combater o desperdício e nunca deixei de levar isso para a minha vida profissional. Tanto valor dou ao muito como ao pouco.

 

“ (…) quem não tiver espírito de sacrifício e capacidade de resistência ao sofrimento, dificilmente consegue ser empresário.”

 

Essa infância moldou a forma como olha para o trabalho e para as empresas?

Completamente. Quando vinha das aulas, descia logo para as oficinas e dizia ao meu pai: “Já cá estou.” E o meu tempo passava a ser usado ali. Trabalhavam-se seis dias por semana e ao domingo ainda se desenhava, calculava e faziam-se orçamentos. Foi nesta realidade que cresci. E, talvez por isso, diga também que, quem não tiver espírito de sacrifício e capacidade de resistência ao sofrimento, dificilmente consegue ser empresário.

 

Como olha para a evolução de Vale de Cambra e da indústria portuguesa?

Vale de Cambra não tinha condições para ser um concelho empresarial. Os acessos eram maus, a energia elétrica era péssima, não havia apoio à saúde, nem escolas técnicas, nem justiça próxima. E, no entanto, hoje tornou-se uma das maiores plataformas tecnológicas do país, com empresas capazes de, em cluster, fornecer fábricas completas para qualquer parte do mundo. Isso mostra a extraordinária capacidade da metalomecânica portuguesa. Hoje, empresas daquela região exportam para dezenas de países e têm relações comerciais globais. Quando olho para trás, sinto bem o sofrimento do caminho que foi feito.

 

Apesar dessa evolução, Portugal continua a ser frequentemente referido como um dos países menos desenvolvidos da Europa…

Adoro o meu país com paixão patriótica e tenho por isso um grande desgosto. Somos, de facto, um dos países menos desenvolvidos da Europa em termos tecnológicos e científicos. E isso acontece porque a cultura tecnológica nunca foi verdadeiramente valorizada como devia. Durante 17 anos, a Fundação Ilídio Pinho promoveu o programa “Ciência na Escola”, em que participaram cerca de meio milhão de alunos e professores. Surgiram milhares de projetos inovadores. A ideia era aproximar as escolas das universidades e das empresas, criando uma cultura científica desde cedo. Infelizmente, o então Ministro da Educação, decidiu acabar com este projeto com enormes prejuízos para a cultura tecnológica escolar.

 

Porque é que considera tão importante começar cedo essa ligação à ciência?

A iniciação científica devia começar logo no pré-primário. Tal como uma árvore depende da qualidade das raízes, também uma sociedade depende da formação de base que dá aos seus jovens. O programa “Ciência na Escola” permitia aos alunos trabalhar em grupo, debater ideias, enriquecer projetos e descobrir vocações. E isso é decisivo e estratégico para o país. Muitos jovens chegam à universidade sem saber verdadeiramente qual é o seu talento ou a sua vocação. Por outro lado, quando os alunos levam a ciência e a tecnologia para casa e começam a falar disso com os pais, irmãos e família, estão também a transformar culturalmente a sociedade. E foi precisamente o fim dessa cultura científica, iniciativa da Fundação Ilídio Pinho em parceria com o Ministério da Educação, “Ciência na Escola”, cuja falta tem sido um enorme prejuízo para Portugal.

 

De quem herdou o seu espírito empreendedor?

A minha mãe vinha de uma família ligada aos laticínios. Vale de Cambra era, aliás, considerada o berço dessa indústria. Do lado da família da minha mãe havia uma forte vocação comercial. O meu pai tinha um talento extraordinário para o trabalho. Foi um trabalhador nato. Começou por trabalhar numa fábrica, tornou-se encarregado e, depois de casar com a minha mãe, estabeleceu-se por conta própria. Cresci neste ambiente. Desde criança escolhia sucata e aprendia a reaproveitar materiais. Fui aprendendo a desenhar, calcular e a trabalhar com as mãos. Durante toda a juventude, vivi muito ligado à produção e à tecnologia. Ao mesmo tempo, tornei-me um insatisfeito no melhor sentido da palavra. Sentia sempre que queria mais. Metade do meu tempo como estudante era passado a imaginar o que queria fazer e como poderia construir algo diferente. Toda a minha vida ficou ligada à produção, ao desenvolvimento tecnológico e à organização industrial. Foi esse percurso que me preparou para, em 1964, fundar a COLEP.

 

Como conseguiu transformar a COLEP numa referência internacional?

O sucesso da COLEP assentou numa ideia fundamental: controlar toda a cadeia de valor. A COLEP começou a fabricar simples latas para bolachas. Com o tempo, integrou toda a cadeia produtiva. Essa integração tornou a empresa extremamente robusta. Se uma área atravessa dificuldades, as outras compensam. Foi esta estratégia que permitiu à COLEP tornar-se uma das maiores empresas europeias do setor, com fábricas em vários países. Aprendi também que o sucesso depende da capacidade de aproveitar os acasos da vida. As oportunidades surgem para todos, mas só as aproveita quem está preparado. E essa preparação, aliada à visão, ao trabalho e à coragem determinada de decidir, foi decisiva.

 

“A velocidade é hoje um fator decisivo de competitividade.”

 

Como é que nos preparamos para aproveitar as oportunidades da vida?

Com trabalho, talento, visão e, sobretudo, conhecimento. O empresário é um criador. Costumo compará-lo a um artista. É alguém que nunca está satisfeito, que está sempre a imaginar como fazer mais e melhor. Mas a preparação faz-se, acima de tudo, através do conhecimento. Um empresário não pode limitar-se a conhecer apenas a realidade do seu país. Tem de conhecer o mundo, perceber como vivem outras sociedades, como trabalham outras empresas e que soluções já existem noutros mercados. Caso contrário, pode pensar que está a inovar quando, noutro lugar, essa ideia já está obsoleta. Foi isso que procurei fazer ao longo da vida: viajar, visitar fábricas, observar diferentes culturas e aprender continuamente. Nunca me reformei dessa vontade de aprender.

 

De que forma é que a tecnologia está a transformar a maneira como as empresas fazem negócios?

A ciência tecnológica trouxe um novo fator estratégico: a velocidade. No passado, era aceitável esperar. Hoje, esperar é uma forma de sofrimento. Vivemos num tempo em que é necessário responder imediatamente. Essa rapidez tornou-se uma exigência fundamental da economia contemporânea e obriga empresas e instituições a repensarem os seus processos e a sua capacidade de decisão. Essa é uma das grandes questões do nosso tempo. A velocidade é hoje um fator decisivo de competitividade. Quem demora a responder perde oportunidades. Portugal e a Europa têm de compreender que o tempo passou a ter um valor estratégico.

 

Ao longo do seu percurso profissional, a inovação tem sido uma constante. Como é que define inovação?

Einstein dizia que tudo o que é possível não é inovação. Só é inovação aquilo que hoje parece impossível. É isso que mais me entusiasma: a capacidade humana de tornar realidade aquilo que, à partida, parece impensável.

 

“A Universidade Católica é uma instituição com características únicas (…)”

 

É um destacado mecenas da Universidade Católica Portuguesa. Foi distinguido com o título de Doutor Honoris Causa, recebeu a Medalha de Ouro da Universidade e, mais recentemente, tornou-se parceiro fundador do Centre for Impact in Global Management (CIGMA). O que representa, para si, essa ligação tão próxima à Universidade?

O sentimento de que a Católica para mim “é casa” tem raízes muito profundas e resulta de uma ligação construída ao longo de mais de quarenta anos. Fui membro da Comissão Administrativa da Universidade Católica - no Porto - durante doze anos, acompanhei momentos muito importantes da sua história e mantive sempre uma relação de grande proximidade com a instituição. Quando entro na Católica, não sinto que estou numa instituição qualquer. Entro num espaço que faz parte da minha vida.

 

O que representa, na sua perspetiva, a Universidade Católica no contexto português?

A Universidade Católica é uma instituição com características únicas, pelas suas relações internacionais, pela sua simbologia e pelos princípios humanistas cristãos em que assenta. Acredito que a Católica pode desempenhar um papel excecional na resposta aos desafios culturais e estruturais que Portugal enfrenta. É uma universidade com capacidade para pensar o país de forma estratégica e para contribuir de forma decisiva para o seu desenvolvimento.

 

Acredita que Portugal pode assumir um papel mais relevante no mundo?

Sem dúvida. Durante muitos anos, Portugal foi visto como um país periférico da Europa. Hoje, essa visão já não faz sentido. As mudanças geopolíticas em curso e a necessidade de uma maior autonomia europeia transformaram Portugal num país altamente estratégico. Pela sua localização, pela dimensão do seu espaço marítimo e, sobretudo, pelas excelentes relações históricas que mantém com todos os continentes, Portugal pode tornar-se uma plataforma de ligação da Europa ao mundo.

 

“Sonho com um Portugal em grande.”

 

O país está consciente do seu potencial?

Infelizmente, ainda não. Portugal possui condições únicas para assumir um papel muito mais relevante no contexto internacional, mas ainda não definiu uma estratégia suficientemente ambiciosa para concretizar esse potencial. Não somos apenas este pequeno território continental. Somos um país com uma enorme projeção marítima e com uma presença histórica e cultural reconhecida em todo o mundo. Isso representa uma vantagem estratégica extraordinária.

 

Como é que sonha Portugal?

Sonho com um Portugal em grande. Um país consciente do seu valor, do seu talento e da sua posição estratégica. Um país que aposta no conhecimento, na tecnologia e na formação das pessoas. Um país que cria confiança e estabilidade, porque sem confiança política e estabilidade não há investimento. Gostaria verdadeiramente de ver Portugal plenamente capaz de aproveitar as suas vantagens competitivas e de afirmar-se como um centro de conhecimento, inovação e ligação entre a Europa e o resto do mundo.

 

21-05-2026

“Geometria Sensível”: Escola das Artes apresenta primeira exposição de Rodrigo Cass em Portugal

A Escola das Artes inaugurou a exposição “Geometria Sensível”, a primeira exposição individual em Portugal do artista brasileiro Rodrigo Cass, com curadoria de João Sarmento SJ e Nuno Crespo, e em colaboração com a Brotéria. A exposição é apresentada em dois momentos: na Escola das Artes, no Porto, foi inaugurada a 20 de maio, e na Brotéria, em Lisboa, será inaugurada a 26 de maio.

Reconhecido internacionalmente e com obras integradas em coleções como o Centre Georges Pompidou, a TBA21 – Thyssen-Bornemisza Art Contemporary e o MAM -Museu de Arte Moderna de São Paulo, Rodrigo Cass apresenta um conjunto de trabalhos onde geometria, cor e gesto se cruzam numa reflexão entre rigor formal e experiência sensível.

A inauguração contou ainda com uma performance de Pedro Verdum, que reforçou a dimensão corporal e performativa presente no universo do artista.

A exposição permanece patente no Católica Art Center, no Porto, até dia 3 de outubro.

Mais informações sobre Geometria Sensível no site oficial da exposição.

Sobre o artista

Rodrigo Cass (nasceu em São Paulo em 1983) desenvolve uma prática artística que se constrói na tensão entre o rigor da tradição construtiva brasileira e uma abordagem sensível, quase orgânica, da forma. Dialogando com os legados do concretismo e do neoconcretismo, o artista desloca essas referências para um território expandido, onde pintura, escultura e imagem em movimento se cruzam e contaminam.

As suas exposições individuais recentes incluem Rodrigo Cass: A Joyner/Giuffrida Visiting Artist Program, Nevada Museum of Art, Nevada, Estados Unidos (2025); libera abstrahere, Fortes D’Aloia & Gabriel, São Paulo, Brasil (2023); Figures, Gestures and Passages, Anthony Meier Fine Arts, San Francisco, Estados Unidos (2019); Espiritual-Vivente-Respira, Fortes D’Aloia & Gabriel, São Paulo, Brasil (2018); Mundo Vasto Mundo, Fortes D’Aloia & Gabriel | Escritório Lisboa, Lisboa, Portugal (2018) e Até o Concreto, Fortes Vilaça, São Paulo, Brasil (2016). Entre suas exposições coletivas mais relevantes, destacam-se 13° Bienal do Mercosul, Porto Alegre, Brasil (2025); Nunca só essa mente, nunca só esse mundo, Fortes D’Aloia & Gabriel | Carpintaria, Rio de Janeiro, Brasil (2023); Rosas Brasileiras, Farol Santander, São Paulo, Brasil (2023); The Square São Paulo, Casa de Vidro, São Paulo, Brasil (2023); AAA – Antologia de Arte e Arquitetura, Fortes D’Aloia & Gabriel, São Paulo, Brasil (2020); Cities in Dust, Fortes D’Aloia & Gabriel | Carpintaria, Rio de Janeiro, Brasil (2020) e The Way Objects Go, Belgrade Cultural Center, Belgrado, Sérvia (2017). 

O artista tem obras em importantes coleções públicas, entre elas Centre Georges Pompidou, Paris, França; TBA21 – Thyssen-Bornemisza Art Contemporary, Viena, Áustria; MAM – Museu de Arte Moderna de São Paulo, São Paulo, Brasil; Museu de Arte da Pampulha, Belo Horizonte, Brasil;  Pinacoteca de Piracicaba, Piracicaba, Brasil; Fundação Rômulo Maiorama, Belém, Brasil; Casa do Olhar Luiz Sacilotto, Santo André, Brasil.

 

21-05-2026

Nuno Sousa e Silva lança obra sobre Direito Digital

O Direito Digital pode ainda não reunir consenso enquanto ramo autónomo do Direito, mas, para Pedro Cerqueira Gomes, a nova obra de Nuno Sousa e Silva dá precisamente esse passo. O lançamento do livro Lições de Direito Digital, que decorreu no dia 19 de maio, na Universidade Católica no Porto, reuniu académicos, advogados e estudantes numa sessão marcada pela reflexão sobre os desafios jurídicos do nosso tempo. Ao lado do autor e docente da Faculdade de Direito – Escola do Porto da UCP, estiveram Pedro Cerqueira Gomes, docente da mesma instituição, e Fábio Castro Russo, sócio da Morais Leitão, Galvão Teles, Soares da Silva & Associados.

“Não consigo encontrar mais ninguém que reúna características generalistas e de especialização para falar de Direito Digital”, afirmou Pedro Cerqueira Gomes, sublinhando o perfil raro do autor. “Este livro foi escrito por um generalista especialista, mas pensado para civilistas, administrativistas, constitucionalistas, para todos os juristas que no seu cantinho do Direito vão precisar não só de literacia digital, mas de literacia em Direito Digital”.

Ao longo da apresentação, o docente de Direito Administrativo defendeu que a principal força da obra está na capacidade de sistematizar um universo jurídico disperso: “O autor deu unidade a um sistema fragmentado de normas e criou uma verdadeira disciplina jurídica”, afirmou. Na sua perspetiva, “a própria norma do Direito Digital, é uma norma diferente”, referiu, explicando que recorre cada vez mais a critérios técnicos, o que obriga os juristas a repensar categorias tradicionais. E, é em grande medida por isso, que a obra reúne temas como Direitos de Propriedade Intelectual, Inteligência Artificial, Comércio Eletrónico e Contratos, Direitos Fundamentais no Ciberespaço, Proteção de Dados Pessoais e Responsabilidade de Plataformas Digitais.

“Talvez eu seja um desses advogados generalistas a quem a obra se dirige”, afirmou Fábio Castro Russo. Para o advogado e antigo docente, o autor consegue traçar, ao longo de toda a obra, o equilíbrio entre uma perspetiva ampla e uma análise substantiva aprofundada. “É preciso ter algum conhecimento tecnológico, e o Nuno tem-no; isso revela-se nesta obra”, quando refere termos como código objeto, dark patterns, open source, addictive design, blockchain e computação quântica, acompanhando-se de um “quadro precioso de referências bibliográficas”.

O advogado destacou ainda a transversalidade do livro, sublinhando que o Direito Digital exige hoje domínio de praticamente todos os grandes ramos jurídicos. “Quem lê esta obra encontra Direito Civil, Direito Comercial, Direito da União Europeia, Direito Internacional Público e Privado, Direito da Concorrência, Direito Processual, Direito Administrativo, Direito Penal, Direito do Trabalho, do Consumidor, Direitos Fundamentais”. “Quem lê esta obra obtém uma mini licenciatura”.

No final da sessão, o autor, Nuno Sousa e Silva, afirmou que “o livro é uma invenção humana superior à do computador”, admitindo, por isso, e em tom desafiador, que esta poderá não ser a última edição da obra.

Saiba mais sobre a obra de Nuno Sousa e Silva AQUI.

21-05-2026

Pages