A saúde mental está cada vez mais na ordem do dia. Conflitos armados, crises humanitárias, populações deslocadas e vagas de refugiados convocam as nossas forças e desafiam as esperanças num mundo melhor. A 10 de dezembro assinalou-se o Dia Internacional dos Direitos Humanos. Como lidar com os estados de ansiedade cada vez mais comuns entre nós e com as experiências traumáticas que nos batem à porta? O contributo da investigação científica na área da Psicologia, nomeadamente da Psicologia da Paz, procura dar resposta às necessidades da comunidade, aplicando os conhecimentos adquiridos para promover o bem-estar geral, a inclusão social e a construção de uma sociedade mais humanizada e justa.
Raquel Matos, diretora da Faculdade de Educação e Psicologia da Universidade Católica Portuguesa, considera que “uma das principais missões da Psicologia é contribuir para a promoção da paz, da justiça social e dos direitos humanos”, dando um relevo capital a esta área nos diversos níveis de formação dos psicólogos. Pioneira da investigação em Psicologia da Paz em Portugal, Mariana Barbosa estuda a dinâmica dos comportamentos violentos, aplicando-os na promoção dos direitos humanos. A docente da Faculdade de Educação e Psicologia (FEP) sustenta que “para resolver os ciclos de violência, a paz tem de implicar igualdade social e restauração de dignidade humana – paz positiva”. Na esteira do fundador dos estudos para a paz Johan Galtung, Mariana Barbosa considera que “trabalhar a paz não é só acabar com a guerra – paz negativa –, implica também promover a justiça e implementar programas de reconciliação”. A Psicologia é uma arma muito poderosa, “se, por um lado, ela pode ajudar a matar, pelo outro, há que concentrar todo o seu conhecimento na prevenção da violência, daí a importância de investir nos processos de reconciliação e de criar mecanismos de justiça”, exemplifica. Enquanto ciência da mente, a Psicologia desempenha “um papel essencial na prevenção dos conflitos e na promoção dos direitos humanos”, conclui a investigadora do Centro de Investigação para o Desenvolvimento Humano (CEDH).
Por uma investigação transformadora da comunidade
A intervenção no terreno, sobretudo em cenários de crise, é fundamental para estabelecer uma ligação profunda com a questão de investigação. Assim foi para Mariana Barbosa com a Plataforma de Apoio aos Refugiados (PAR), no início da crise de refugiados no Mediterrâneo em 2016, e em 2022 quando apoiou os deslocados de guerra ucranianos. A cultura de humanismo e de voluntariado da Universidade Católica Portuguesa (UCP) pugna por ser um vetor diferenciador para os seus investigadores, no caminho de descoberta da ciência ao serviço da comunidade. Concretamente, a Psicologia da Paz está intimamente ligada com a educação para a paz, “que tem de ser essencialmente um exercício de humildade”, esclarece Mariana Barbosa. Caso exemplar é o HIP-Heroic Imagination Project Portugal.
Fundado e liderado por Philip Zimbardo, Prof. Emeritus da Stanford University, o HIP “baseia-se na consciencialização de que qualquer pessoa aparentemente vulgar é capaz de cometer atos heroicos e trabalha na capacidade de cada um tomar essa decisão”, afirma a coordenadora. Este projeto internacional é coordenado em Portugal por Mariana Barbosa, e tem sido implementado junto de crianças e adolescentes. A implementação mais recente do programa decorreu no Centro Social da Paróquia da Nossa Senhora da Ajuda, em parceria com a Look Around, uma associação de antigos estudantes da faculdade. Com o objetivo de combater a indiferença social dos jovens e promover atitudes e comportamentos pró-sociais, através da educação para o heroísmo quotidiano, o HIP tem por missão fazer a diferença no terreno, capacitando os jovens para serem agentes de transformação no seu bairro, através da abordagem de conceitos como o conformismo e formas de desenvolver ações de coragem e de bondade para com o próximo.
Ainda no campo da intervenção, com o propósito de auxiliar crianças migrantes e refugiadas, o projeto "Waves in You" aposta na surf therapy como forma de promover o bem-estar psicológico e a inclusão social destas crianças. Desenvolvido pela Fish Surf School, em parceria com a Universidade Católica e o Instituto Universitário de Ciências da Saúde, o projeto combina estratégias de educação não formal e estratégias de ensino formal da prática de surf. A avaliação de impacto do projeto está a ser conduzida pelo Centro de Investigação para o Desenvolvimento Humano (CEDH), da FEP-UCP.
Compromisso com um futuro ao serviço da paz
Raquel Matos, docente da FEP e investigadora do CEDH, adianta que “compreender e promover a construção da paz é uma tarefa particularmente ambiciosa”. De facto, considerando os diversos contextos educativos, “é necessário trabalhar a empatia, a valorização de cada pessoa, o respeito por todos, os direitos humanos e a cidadania”. Contudo, confia: “Temos conhecimentos e competências para assumirmos um papel essencial a este nível, contribuindo para a construção de uma paz positiva e de um enquadramento estrutural não violento”. Para Raquel Matos, que também desenvolve investigação na área da Psicologia da Paz, essa missão pressupõe inevitavelmente “um compromisso com os direitos humanos e com a justiça social”.
O Centro de Investigação para o Desenvolvimento Humano da Faculdade de Educação e Psicologia participa na promoção, defesa e garantia da Declaração Universal dos Direitos Humanos, estabelecida a 10 de dezembro de 1948, pela Organização das Nações Unidas, apostando numa psicologia ao serviço da paz. Abraçando o compromisso da Investigação com a Intervenção e o Ensino, o CEDH está focado em capacitar os seus investigadores e os futuros psicólogos para trabalharem em contextos de crise humanitária e enquanto cidadãos comprometidos com os direitos humanos e a justiça social.
11-12-2023